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Introdução

A difícil tarefa da interpretação bíblica fica ainda mais complexa quando se adiciona mais um elemento ao processo, o da transmissão da mensagem em contextos transculturais. Tendo como base a doutrina da Trindade, o presente texto se propõe a delinear alguns alicerces para a intricada tarefa da interpretação e transmissão da mensagem bíblica em contextos multiculturais.

O conceito de etno-hermenêutica

etno-hermenêutica é a interpretação do texto bíblico em sua diversidade (autores, contexto histórico e cultural) para milhares de grupos étnicos que vivem em diversas culturas e com cosmovisões distintas. Um exemplo de modelo etno-hermenêutico é a orientação dada ao receptor de Larry Caldwell. Sua tese é que os métodos interpretativos chamados Ocidentais não podem ser considerados universais e aplicados em todos os contextos culturais. Ele defende a utilização de métodos hermenêuticos mais orientados pelo receptor que são encontrados na própria cultura local. Ele afirma que “todas as culturas possuem seus métodos hermenêuticos que são usados por séculos para interpretarem seus textos sagrados… e este é o coração da etno-hermenêutica”

A preocupação de Caldwell seria genuína se o postulado fosse concernente à comunicação mais contextualizada em culturas, por exemplo, animísticas ou onde as estruturas de pensamento são predominantemente monísticas. Contudo ele soa a trombeta para uma abordagem relativística onde a intenção original do autor bíblico é completamente deixada de lado.

As diversas formas da teologia da libertação que se expressam na forma de teologias feministas, das minorias oprimidas e na teologia Minjung na Ásia são outros exemplos do descarrilamento hermenêutico. O outro extremo na hermenêutica está no método histórico-crítico. Quando surgiu no final do séc. XIX início do XX este método apresentou-se como “uma expressão extremamente agressiva e exclusiva da ideologia Europeia de superioridade negando o direito de existência de quaisquer outras análises, sejam populares ou acadêmicas, mas também se reservando como um tipo de ciência secreta.” 

Com o desenvolvimento da hermenêutica mais atenção é dada ao leitor que passa a ocupar a posição de um agente essencial na interpretação. Este acaba trazendo consigo toda sua bagagem e pré-entendimento. O texto não é mais uma janela transparente pela qual observamos inocentemente a mente do autor e a realidade do seu mundo por de traz, mas um processo de interação entre o leitor, texto, autor e o mundo. A tudo isso devemos acrescentar o aspecto étnico de leitores que estão inseridos em contextos culturais distantes para termos a dimensão da empreitada que tradutores, interpretes e pregadores enfrentam todos os dias para que a unidade não se perca nas particularidades.

O cenário bíblico-hermenêutico atual reflete justamente este círculo vicioso onde cada indivíduo ou um grupo particular com suas pressuposições e bagagens, abordam o texto produzindo interpretações muito diferentes, e por vezes totalmente contrárias de um mesmo texto. A tendência é de uma fragmentação hermenêutica dentro dos diversos grupos evangélicos onde não há um consenso e uma harmonização, mas a coexistência por vezes esquizofrênica de escolas hermenêuticas completamente antagônicas. O relativismo, contudo, não se resume a algumas destas escolas e na prática os estudos em grupos familiares, as mais criativas pregações em congregações e ensinos nos campos missionários acabam vivenciando o emaranhado das particularidades.

Caso 1: Diferença de interpretação sobre a vida de José

A hermenêutica não é uma ciência exata. Mesmo aplicando o método Histórico-gramatical dois intérpretes podem chegar a interpretações diferentes do mesmo texto bíblico. Assim como não é incomum encontrarmos opiniões distintas em comentários de autores da mesma linha teológica, ao acrescentar o elemento cultural na interpretação, outros processos devem ser considerados. Observemos o seguinte cenário:

Lagos, Nigéria: Joshua Akpan estava pregando sobre a vida de José. Ele resume o ponto principal de seu sermão dizendo que mesmo depois de tudo ele não havia esquecido de sua família.

Nashville, Tennessee: Phil Edwards estava também pregando sobre a vida de José. O ponto principal de seu sermão é que Deus esteve com José, providencialmente protegendo e cuidando dele o tempo todo.

No exemplo acima, ambos intérpretes não estão errados e suas interpretações não são excludentes. A história de José tem estes dois aspectos como lição. Muitas vezes a lente cultural que usamos nos permite enxergar apenas parte da verdade. A perspectiva Africana dá preferência ao aspecto coletivo, pois este elemento é mais importante naquela cultura que o aspecto individual. Agora qual será que se aproxima mais da perspectiva do autor bíblico? Será que a cultura no mundo Antigo quando Moisés escreveu Gênesis era mais individualista ou coletiva?

É possível chegarmos muito próximo do sentido original utilizando recursos e ferramentas que aproximam as realidades distantes. Contudo é preciso humildade e empenho para se abordar o texto Bíblico.

A interpretação bíblica é uma arte. Palavras não são meros tijolos usados de maneira técnica para dar sentido à algo, mas um meio pela qual o artista quer se expressar. A história também não se trata apenas de uma questão de eventos literalmente descritos em relatos científicos, mas são ideias e interpretações de eventos testemunhados. O elemento artístico na interpretação é essencial.

A Espiral etno-hermenêutica

A Espiral Etno-hermenêutica é uma proposição que tem um caráter multifacetado e coletivo. Primeiramente o conceito de espiral hermenêutica deve ser estabelecida, seguido da perspectiva etno-hermenêutica e finalmente baseado na pesquisa coletiva. Em todos estes elementos a teologia trinitariana serve de base epistemológica na proposição.

Há um movimento contínuo e progressivo no entendimento que pode ser melhor visualizado como uma espiral quando o significado (intenção do autor original) se dirige à significação (contextualização, ou seja, o significado para hoje). “Uma espiral é uma metáfora mais adequada, pois não é um círculo fechado, mas um movimento irrestrito que vai do horizonte do texto ao horizonte do leitor.”

A espiral hermenêutica é uma variação do raciocínio espiral de Cornelius Van Til quem afirmou que “precisamos caminhar ao redor de algo para cobrirmos todos os ângulos se queremos ver todas as suas dimensões e conhecer mais sobre isso, a não ser que sejamos maiores do que o objeto que investigamos.”

É aqui que a doutrina da Trinidade nos ajuda a entendermos a inseparabilidade da exegese e da contextualização. Ambas devem acontecer ao mesmo tempo na medida em que o entendimento exegético do texto vai crescendo, a aplicação deve estar no outro lado da espiral. O próximo nível de contextualização acontece quando a aplicação é feita à uma terceira cultura, diferente da qual o pregador ou intérprete está inserido. Deus criou a diversidade como característica essencial na criação refletindo sua própria natureza Triúna. A diversidade cultural muitas vezes não é levada em  consideração quando a discussão envolve hermenêutica Bíblica. Diversidade étnica, cultural e de expressão são marcas da Igreja de Cristo e esta multiplicidade pulsante será o retrato da Nova Jerusalém. Esta diversidade pode trazer contribuições no aprofundamento no entendimento da Palavra.

A etno-hermenêutica é um processo necessário porque cada cultura tem seus pecados a serem tratados e cada geração seus questionamentos existenciais. Quando traduzimos a Bíblia para nossa língua materna, estamos fazendo etno-hermenêutica. Na Bíblia em língua coreana, Jesus é bolinho de arroz que desceu do céu. Esta interpretação faz todo o sentido e melhor se aproxima da intenção original do autor bíblico, pois na cultural local não existia pão de trigo, e o bolinho de arroz traduz perfeitamente aos ouvintes a ideia do pão nosso da cada dia, algo essencial para a subsistência física.

Uma pregação eficaz também se faz com a aplicação de princípios etno-hermenêuticos. A espada afiada de dois gumes tem dois aspectos: uma mensagem fiel exegeticamente e habilmente entregue de maneira clara e inteligível ao contexto. Um missionário que leva a mensagem aos Wapixanas no interior de Roraima precisa saber que sua estrutura de raciocínio deste povo é circular e que a melhor maneira de se comunicar as verdades de Deus é de maneira dialógica através de histórias. Um sermão pregado em Nairobi, Kenya para ouvintes naquele contexto não será tão eficaz se traduzido literalmente em Japonês para ex-presidiários que vivem nos arredores de Tóquio e se reúnem num bar para seus cultos dominicais. Falta aí o elemento da linguagem do coração. Dificilmente um pregador irá conseguir falar ao coração das pessoas de maneira transformadora apenas consultando interpretações prontas oferecidas em comentários bíblicos e comunicado em “tupiniquês” claro.

Sem cair no relativismo, uma etno-hermenêutica digamos brasileira (múltiplo) deve estar alinhada com o método histórico-gramatical (uno). Este é um aspecto ainda controverso que precisa de maior desenvolvimento na perspectiva Reformada. Este artigo não tem como propósito estabelecer uma solução, mas apenas incitar discussões e abrir caminho para futuras investigações.

Caso 2: Diferença de interpretação sobre a parábola do semeador

Consideremos a parábola do semeador em Marcos 4 como estudo de caso. As interpretações abaixo são feitas no mesmo texto, utilizando o mesmo método exegético, por teólogos Reformados que formação similar, mas de culturas diferentes.

Interpretação A: O ponto principal da parábola são os solos e estes podem ser relacionados ao tipo de pessoa que houve a mensagem. Os fariseus são o solo de chão batido por onde caminham as pessoas e a semente visível é facilmente levada pelos pássaros. O solo rochoso representa as multidões apaixonadas por Jesus, mas que ao primeiro sinal de dificuldade o abandonam. O solo com as ervas daninhas se refere aos “quase crentes” que tem seu coração dividido entre o mundo e Deus. E finalmente os discípulos verdadeiros são representado pelo solo frutífero.

Interpretação B: O ponto principal da parábola são os solos e estes podem ser relacionados ao coração de um único individuo em certos momentos quando houve a palavra. Em determinado momento o diabo simplesmente leva a semente embora apesar da pessoa ter participado do culto e ouvido a mensagem. Em outro momento a mensagem é considerada muito dura e acaba não sendo recebida. As alegrias e tentações do mundo são a causa da Palavra não frutificar em determinados momentos na vida desta pessoa, mas há ocasiões onde solo está fértil e muitos frutos são produzidos.

Não existem duas ou mais interpretações do mesmo texto. Apenas uma está correta e as outras equivocadas. É possível, no entanto, termos interpretação complementares que conseguem visualizar juntas o aspecto mais amplo de texto. A figura abaixo ilustra como cada cultura se aproxima da totalidade da Verdade Bíblica. Note que não se trata de múltiplas interpretações do mesmo texto (figura 1).hermenêutica

O aspecto coletivo da interpretação bíblica também é outro elemento a ser considerado no processo de aproximação da verdade Bíblica. O teólogo solitário da torre de marfim precisa buscar na coletividade, i.e., numa comunidade hermenêutica internacional (múltiplo) o sinergismo que produz uma mais base sólida na exegese histórico-gramatical (uno). A Sabedoria têm muitos conselheiros (Provérbios 11.14; 15.22; 24.6). Os concílios de Nicéia e Westminster são exemplos de realizações coletivas.

No mundo globalizado em que vivemos uma maior interação com o restante do povo de Deus enriqueceria toda a Igreja de Cristo. Questões como a aparente moralidade em culturais orientais de fundo monistas, a reverência aos ancestrais em sociedades tradicionais Africanas, o individualismo e a cultura do consumo Americano poderiam ser tratadas pelo processo de transformação da espiral etno-hermenêutica. Tudo isso resultaria numa aproximação maior da verdade Bíblica (figura 2).

Conclusão

Reiterando que sem um critério unificador (método histórico-gramatical) na interpretação bíblica as múltiplas perspectivas e percepções perdem o sentido. O relativismo é um risco, mas um risco que vale a pena correr ante visão gloriosa de todos os povos, línguas e raças juntas servindo e conhecendo melhor o Deus soberano em sua revelação especial.

 


    3 replies to "A influência da cultura na interpretação bíblica"

    • Alide Moreira

      A intrepretação biblica tem sido um grande problema na actualidade.

    • Lygia Oliveira da Silva

      Glória a Deus por este artigo. Muito esclarecedor afinal vivemos em um mundo multicultural e é preciso com sabedoria e graça concedidas pelo nosso Deus ministrar sua palavra de acordo com suas realidades mas sem perder a essência bíblica.

    • Nesias Joaquim dos Santos

      Que prazer ter seu contato!
      Sou pastor Nesias Joaquim. assistir e participei do perspectiva Salvador Agosto a novembro do ano passado. tembem muito bom cuidado seu material deixado pelos organizadores do perspectiva. Porém gostaria de ter as fotos e os dados dos primeiros missionário enviado do brasil para outros países. Esses não estão no material. Gostaria de pedir. Se estiverem disponíveis , se não forem exclusivos, que me aviasse são se não me esquece dois ou três slides/fotos destes missionários. Grato e um feliz ano novo

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