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Após algumas empreitadas mal sucedidas para a instauração do protestantismo no país em seu período colonial,[1]  o protestantismo no Brasil foi praticamente extinto por aproximadamente 200 anos.  Apenas após a família real portuguesa vir ao Brasil, e a dependência portuguesa diante da Inglaterra, é que notamos uma maior abertura a vinda de imigrantes anglo-saxões para o Brasil, muitos deles protestantes. “Assim, progressivamente passando pela constituição de 1824 até a de 1891, foi sendo reduzida a hegemonia católica, e os protestantes foram conquistando o seu lugar no espaço brasileiro.”[2] Diversos protestantes de diversos países europeus, como alemães, suecos e ingleses, assim como muitos norte-americanos, passaram a viver no Brasil vendendo Bíblias e praticando cultos religiosos, mesmo que de forma legalmente muito restritiva.[3]

“A admiração de D. Pedro II”: O ressurgimento do protestantismo no Brasil

No Brasil monárquico é que temos o ressurgimento do protestantismo, e, consequentemente, uma pequena quebra da hegemonia católica como principal religião do país. Além dos protestantes estrangeiros que já estavam chegando aqui desde o início do império, no reinado de Dom Pedro II começaram a aparecer as missões estrangeiras. O próprio Dom Pedro II admirava esses missionários “pelos seus conhecimentos e pelos serviços práticos que poderiam prestar”[4]. O proselitismo religioso protestante não era algo que o Imperador se opunha. Mesmo sendo católico, ele não adotou a linha católica ultramontana que se reestruturava no século XIX e que se mostrava combativa a qualquer religião ou ideal acatólico. Além do que, a admiração pelo protestantismo ia além da inteligência desses missionários, é algo que acompanha a relação entre os protestantes e o país desde a primeira caravana de protestantes que aqui pisou: havia um projeto civilizatório onde o protestantismo era visto como um instrumento para se chegar a um devir, em um modelo ideal de nação próspera. Um projeto que, aparentemente, não estava apenas permeando o imaginário social norte-americano, mas também de muitas lideranças políticas e intelectuais brasileiras. Notamos esse discurso na obra “O protestantismo brasileiro”, em que Leonard analisa o discurso de Marquês de Paraná, em 1854:

Meu governo, dizia ele no discurso do trono em 3 de maio de 1855, empenha-se com particular interesse na tarefa de promover a colonização, da qual depende essencialmente o futuro do país. Para tanto, é necessário assegurar aos mais “evoluídos” desses colonos esperados, pertencentes a nações protestantes, a possibilidade de exercer seu culto e de nele educar seus filhos.[5]

Esse discurso civilizatório também foi um gancho para missionários como James Cooley Fletcher se inserirem no país, ele que, como pastor e também como banqueiro, se utilizava da sua titulação de “homem de negócios” para vir ao Brasil propagar a fé protestante. Trabalhou em hospitais, ajudou outros missionários protestantes financeiramente, vendia bíblias e depois de vários anos de tentativas conseguiu entrar no ciclo social do imperador Dom Pedro II. Tornou-se presidente da Sociedade Bíblica no Brasil e a distribuição de bíblias no país aumentou de 4000 para 20.000 exemplares. Segundo Mendonça, a liberdade que se passou a ter no Império para vender e distribuir bíblias por parte de agências das sociedades bíblicas estrangeiras, bem antes da chegada e estabelecimento das missões protestantes, se tornou uma estratégia protestante de penetração da sua fé no país.[6]

Segundo David Vieira Gueiros, um dos assuntos recorrentes de Fletcher com Dom Pedro II e com diversos empresários brasileiros era a ideia de “progresso” do país, que procurava retratar os países anglo-saxões usando-os como exemplo, atribuindo ao protestantismo o motivo do sucesso econômico e social dessas nações, e tentando convencer o Imperador, os literatos e estadistas do Brasil da superioridade do protestantismo, de modo que eles cooperassem para que a imigração protestante se desenvolvesse no país.[7]

Além disso, Fletcher foi um grande incentivador do ministério de Robert Reid Kalley, relevante personagem na história do protestantismo no Brasil. Nascido na Escócia, Kalley havia trabalhado em uma obra de evangelização vinculada a um projeto de assistência médica, e conseguiu ter milhares de adeptos e adotou o calvinismo como um modelo doutrinário protestante, algo que não foi bem visto pelo clero local, gerando perseguições a ponto de levá-lo à prisão por uns meses. Após obter asilo nos Estados Unidos, Kalley foi convidado para vir ao Brasil ajudar na propagação da fé protestante, desembarcando aqui em 1855.[8]

Kalley foi além da distribuição e venda de bíblias como forma de evangelismo e passou a fazer pregações de rua. Convocou aliados portugueses para auxiliá-lo na pregação do protestantismo, e assim como Fletcher também “dedicou-se a estabelecer, com as autoridades mais elevadas e com a alta sociedade brasileira, contatos que garantiam sua obra e seus convertidos”[9]. Seus contatos políticos eram tais que conseguiu ser conhecido pelo próprio Imperador, a ponto de Dom Pedro II ir à sua casa convidá-lo pessoalmente para fazer uma conferência à família imperial.[10]

“Entre prestígio e apedrejamentos”: A tentativa de consolidação do protestantismo

Kalley tinha seus motivos para temer e procurar se cercar de pessoas de grande prestígio político e social, pois em algumas reuniões de culto protestante organizadas por ele no Rio de Janeiro “eram atiradas pedras, as escadas externas ensaboadas ou untadas de excrementos; insultos e ameaças de sevícia eram dirigidas contra os assistentes, e tudo isso com a autorização da polícia local”[11].  Em 1860, oito portugueses calvinistas foram presos em uma reunião domiciliar, e a alegação da prisão era por estarem promovendo uma reunião ilícita”, como retratou o veículo de imprensa do período, Correio Mercantil. Kalley e seus aliados publicaram artigos para os jornais acusando as autoridades de intolerantes e sempre retratando aos veículos de imprensa norte-americanos os casos de intolerância religiosa no Brasil. Por estar cercado de amigos de influência na corte, Kalley se esquivou de grandes perseguições, embora claramente no decorrer de seu ministério os alvos fossem os seus seguidores. Mesmo com perseguições recorrentes, muitos missionários aproveitaram essa abertura do país com relação a estrangeiros anglo-saxões, e o respeito que autoridades políticas e literatos brasileiros já possuíam pelo protestantismo para virem ao Brasil e propagar a fé protestante. Com isso, muitas denominações passaram a se estruturar no país, mesmo que com diversas restrições. Notamos a presença de congregacionistas vindos através do próprio Kalley (1855), os presbiterianos (1859), os metodistas (1867) e os batistas (1871).

A Igreja Presbiteriana chegou ao Brasil pelas mãos do missionário Ashebel Green Simonton, que recebeu cartas de apresentação escritas por James Cooley Fletcher dirigida a membros de “alta classe”, mas pouco as utilizou.  Simonton foi responsável pela iniciação de um seminário presbiteriano no Brasil, distribuição de bíblias e criação de um jornal presbiteriano chamado “A imprensa evangélica”. O primeiro jornal protestante presente no país.[12]

Em 1882 surgiu a primeira igreja batista brasileira em Salvador. Um missionário que se destacou no trabalho foi Willian B. Bagby, junto com sua esposa Ana. B Bagby. Contudo, já existiam batistas vivendo no Brasil havia uma década, e congregando em residências.[13] A filha dos Bagby, Helen Bagby Harrison, escreve sobre a vida dos pais, contando inicialmente a migração dos batistas para o país, relatando o quanto esse processo migratório foi consideravelmente influenciado pela guerra civil ocorrida nos EUA, na qual centenas de famílias americanas de origem batista migraram para o Brasil por perderem terras e escravos, recebendo o convite do próprio Dom Pedro II.[14]

Protestantismo, a “religião do progresso”

Hawthorne, um general norte-americano sulista, que tinha contatos com o imperador, se tornou membro da sociedade missionária do Texas e, a partir daí, incentivou o Brasil como um forte território a ser trabalhado por missionários batistas. Há várias justificativas, tais como esta:

Primeiro, o governo é justo e estável, sábio e firmemente administrado e oferece segurança de vida, liberdade e prosperidade, um governo onde o mérito é devidamente recompensado e o crime é prontamente punido. Imigrantes industriosos de todos os climas e países, mas especialmente dos Estados Unidos, são convidados e recebidos com corações e braços abertos, e toda a proteção e comodidade lhes são dadas que passam ser necessárias para o progresso e prosperidade. Segundo: O povo do país é polido, liberal e hospitaleiro ao mais alto grau. Tem grande admiração pelo povo americano, e está, evidentemente, na condição mais favorável para receber de nossa parte um cristianismo mais puro.[15] 

Essas informações romanceadas com as quais Hawthorne retrata o Brasil mostram o quanto ele quer revelar a abertura dada ao governo feita por Dom Pedro II. Naturalmente, podemos comparar o relato de Hawthorne acerca da história de tensões entre católicos e protestantes (no decorrer do Império). Contudo, se analisarmos para além dessa visão romanceada do general missionário batista sobre o Brasil notaremos o quanto ele reconhece o Governo como o agente que promove a abertura política para a vinda de imigrantes, especialmente de norte-americanos, uma migração legitimada por um discurso de que eles faziam parte do “progresso”; essa foi a mensagem que fez com que Willian e Ana B. Bagby viessem ao Brasil.

        Os protestantes no Brasil monárquico ganharam a admiração de membros da elite local, intelectuais, e até do próprio imperador.  Vistos como uma religião que trazia “progresso” ás nações, sempre citando como exemplo o crescimento econômico de países protestantes como Inglaterra e Estados Unidos, os missionários protestantes ganhavam o respeito de autoridades, e apedrejamento de outros setores sociais brasileiros que os viam como uma ameaça e incômodo diante de sua fé majoritariamente católica. Entre admiração e perseguição, o protestantismo no Brasil foi seguindo em uma leve crescente do início ao final da monarquia brasileira.  


[1] Em minha tese, “Por uma religião nacional” A separação entre Igreja e Estado e a disputa religiosa entre católicos e protestantes em Belém do Pará. Em um capítulo a parte aborda-se a história do protestantismo no Brasil desde o período colonial, com a expedição de Villegaignon até a chegada dos protestantes holandeses no Recife.  Foram tentativas de consolidação do  protestantismo que foram pontuais e perduraram por um tempo, mas em poucos anos se dispersaram e não abalaram os 200 anos de hegemonia do catolicismo no país.

[2]MENDONÇA, Antônio Gouveia. O celeste porvir: a inserção do protestantismo no Brasil. São Paulo: IMS, 1995, p.26.

[3]Ibidem.

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[4]LEONARD, Emilie. Protestantismo brasileiro: estudo de eclesiologia e história social. Rio de Janeiro; São Paulo: Juerp/ASTE, 1981, p.48.

[5]LEONARD, Emilie. Protestantismo brasileiro: estudo de eclesiologia e história social. Rio de Janeiro; São Paulo: Juerp/ASTE, 1981, p.48.

[6]MENDONÇA, Antônio Gouveia. O celeste porvir: a inserção do protestantismo no Brasil. São Paulo: IMS, 1995, p.27.

[7]GUEIROS, David Vieira. O protestantismo, a maçonaria e a questão religiosa no Brasil. Brasília, DF: Universidade de Brasília, 1980, p.75.

[8]LEONARD, Emilie. Protestantismo brasileiro: estudo de eclesiologia e história social. Rio de Janeiro; São Paulo: Juerp/ASTE, 1981, p.50. GUEIROS, David Vieira. O protestantismo, a maçonaria e a questão religiosa no Brasil. Brasília, DF: Universidade de Brasília, 1980, p.120.

[9] Ibidem, p.50.

[10]GUEIROS, op. cit., p.121.

[11]LEONARD, op. cit., p.51.

[12]A imprensa protestante no país é um tema bem fundamentado na tese de Micheline Reinaux de Vasconcelos, que conta a trajetória dessa imprensa por aqui desde o período imperial até o republicano. A autora trabalha o tema a partir dos jornais “Imprensa Evangélica” e “O jornal Baptista”, usando-os como suas principais fontes, mas também cita outros periódicos que circulavam nas outras denominações e em outras regiões. O jornal presbiteriano “Norte Evangélico”, publicado para o Norte e o Nordeste do país, acerca do qual falaremos mais adiante, também é citado por Vasconcelos. VASCONCELOS, Micheline Reinaux de. As boas novas pela palavra impressa: impressos e imprensa protestante no Brasil (1837-1930). Tese (Doutorado em História), PUC-SP, São Paulo, 2010.

[13]SANTOS, Marcelo e PINHEIRO, Jorge. Manual de história da Igreja e do pensamento cristão. Fonte editorial, 2013. p342

[14] HARRISON, Helen Bagby. Os Bagby no Brasil. Rio de Janeiro: JUERP, 1987, p.14.

[15]Apud: HARRISON, Helen Bagby. Os Bagby no Brasil. Rio de Janeiro: JUERP, 1987, p.14.


Rafael Gama
Rafael Gama

Doutor em história na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e professor de história com especialidade em história do cristianismo, história das missões e história das religiões. Sou um servo e amigo de Cristo, que nas horas vagas se infiltra nos lugares mais obscuros na cidade procurando levar a única luz aos que estão cegos pela escuridão deste mundo. Contato: gama.hist@gmail.com

    2 replies to "Entre Admiração e Perseguição: O protestantismo no reinado de Dom Pedro II"

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