Qual é o papel da revelação geral na fé cristã? Em que consiste seu uso na teologia natural, que tem grande importância na defesa da fé? Em seu sentido mais amplo, a revelação geral é a forma como o Criador se revela através das suas obras da natureza. A teologia natural é, com isso, a racionalização daquilo que há na natureza para demonstrar a existência desse Deus, de modo que argumentos são formulados e defendidos a partir das observações da natureza para demonstrar que Deus existe.

A Confissão de Fé de Westminster começa falando do poder e do papel da chamada “luz da natureza”.  A que se refere essa luz? Para os autores, essa luz se refere à revelação geral, aquela que mostra que há um criador do cosmos, de modo que todos os descrentes são inescusáveis.

A Escritura e Teologia Natural

Como base dessa doutrina, temos os textos de Romanos 1.20 e do Salmo 19.1-4. Em Romanos, o apóstolo Paulo diz de modo bem claro: 

“Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis” (Rm 1:20)

William Lane Craig apontou o fato de que a linguagem nesse texto indica a possibilidade de uma percepção racional da existência de um Criador. O texto grego usa as palavras ἀόρατα […] νοούμενα καθορᾶται [aorata… noumena kathoratai], que são traduzidas por “os atributos invisíveis […] têm sido claramente vistos, sendo compreendidos”. A ênfase de Craig com esse texto se divide em duas partes: 

(1) O texto parece indicar que uma inferência racional está envolvida nessa percepção dos atributos invisíveis de Deus, de modo que ele sugere, usando para comparação uma tradução em francês, o seguinte entendimento: “A natureza invisível de Deus é percebida através da reflexão nas coisas que foram criadas”; 

(2) A linguagem de Paulo reflete muito aquela presente na filosofia grega e judaica da época, os quais Paulo provavelmente conhecia. De modo mais impressionante, a forma como Paulo fala parece remeter ao texto apócrifo de Sabedoria de Salomão 13.1-9, onde a reflexão racional sobre as coisas criadas é referida.

O interesse de Paulo, portanto, parece ser o de mostrar a validade da teologia natural: a reflexão acerca da revelação geral, de modo que mostre que a natureza aponta a existência de um Criador do mundo. Além disso, Craig faz referência ao texto de Atos 14, que diz: 

No passado ele permitiu que todas as nações seguissem os seus próprios caminhos. Contudo, não ficou sem testemunho: mostrou sua bondade, dando-lhes chuva do céu e colheitas no tempo certo, concedendo-lhes sustento com fartura e enchendo de alegria os seus corações” (Atos 14:16-17)

Craig comenta que “Deus deixou os Gentios seguissem seus próprios caminhos, mas ainda assim ele não os deixou amartyron, ou seja, sem evidência ou testemunho, os quais são constituídos na ordem criada”. Outro texto relevante para se falar da revelação geral é o do Salmo 19: 

Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos. Um dia fala disso a outro dia; uma noite o revela a outra noite. Sem discurso nem palavras, não se ouve a sua voz. Mas a sua voz ressoa por toda a terra, e as suas palavras, até os confins do mundo… (Salmos 19:1-4)

Esse famoso texto que é usado constantemente em legendas de fotos de paisagens nas redes sociais também nos mostra a tarefa da revelação geral. Em Romanos 10.18, o apostolo Paulo cita o salmista para responder a aqueles que possam dizer que os israelitas nunca ouviram o evangelho. Paulo parece ecoar aqui o que disse em Romanos 1.20: aqueles que dizem que não sabem da existência de um Criador são mentirosos, de modo que a natureza lhes declara sua existência, sendo assim inescusáveis. Paulo também apela para a revelação geral em sua pregação registrada em Atos 17:

“O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há é o Senhor do céu e da terra, e não habita em santuários feitos por mãos humanas. Ele não é servido por mãos de homens, como se necessitasse de algo, porque ele mesmo dá a todos a vida, o fôlego e as demais coisas. De um só fez ele todos os povos, para que povoassem toda a terra, tendo determinado os tempos anteriormente estabelecidos e os lugares exatos em que deveriam habitar. Deus fez isso para que os homens o buscassem e talvez, tateando, pudessem encontrá-lo, embora não esteja longe de cada um de nós. Pois nele vivemos, nos movemos e existimos’, como disseram alguns dos poetas de vocês: ‘Também somos descendência dele’. Assim, visto que somos descendência de Deus, não devemos pensar que a Divindade é semelhante a uma escultura de ouro, prata ou pedra, feita pela arte e imaginação do homem. No passado Deus não levou em conta essa ignorância, mas agora ordena que todos, em todo lugar, se arrependam. Pois estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio do homem que designou. E deu provas disso a todos, ressuscitando-o dentre os mortos” (Atos 17:24-31)

O método de Paulo, aqui, nos lembra uma metodologia mais clássica de apologética, tendo em vista que primeiro ele apela a Deus como Criador de todas as coisas (17.24), de modo que os seres humanos foram colocados nos lugares exatos onde pudessem descobrir o Criador (17.26-27), mesmo Deus sendo o grande sustentados do mundo (17.28). Por fim, Deus agora ordena que todos se arrependam e creiam em Cristo, pois todos receberam provas suficientes de quem ele é, tendo Deus o ressuscitando dos mortos (17.30-31).

A Teologia Natural na História Reformada

A importância da revelação geral e da teologia natural foi muito bem apontada por diversos Reformadores. Lambert Daneau usou a “luz da natureza” como justificativa para a reação dos marinheiros gentios, tendo clamado a Deus, na navegação em que Jonas estava (Jonas 1.9-16). 

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R. C. Sproul aponta que os cristãos do século XVI diferenciavam entre três níveis da fé salvífica: notitia, assensus e fidúcia. Quando falamos de notitia, estamos falando dos fatos que são a essência da fé que justifica: “Existe um nível básico de informação que faz parte do cristianismo. Quando os apóstolos saíram para proclamar o evangelho de Jesus Cristo, deram uma lista de pontos chave, sobre o trabalho e a pessoa de Jesus”. Seguindo essa linha de pensamento, Sproul diz que: 

“Antes de efetivamente convidarmos as pessoas para a fé salvadora, devemos dar-lhes a informação ou a essência do que estão sendo convidas a acreditar, e isso envolve a mente. Envolve comunicação da informação para que as pessoas possam entender.”

Antes de eu ser capaz de declarar Cristo como Salvador, tenho de entender que preciso de um Salvador. Preciso compreender que sou um pecador. Preciso compreender do que o pecado é. Preciso entender que Deus existe. Preciso entender que estou afastado desse Deus e que estou exposto ao seu julgamento. Não procuro por um salvador a menos que seja primeiramente convencido de que preciso de um.

Assenssus é o reconhecimento intelectual dos fatos que compõem a fé. Nesse aspecto, a mente do crente reconhece as proposições relacionadas à essência da fé, como “Jesus ressuscitou dos mortos”, “Deus existe”, etc. Esse reconhecimento intelectual é o segundo aspecto da fé, mas, embora ele por si só não seja a parte salvífica, sem ele é impossível ter uma fé genuína. Por um lado, podemos “saber acerca de Jesus e não ter um relacionamento pessoal com ele”, por outro, se “dissermos que temos um relacionamento pessoal com Cristo, mas não acreditamos que ressuscitou dos mortos, então estamos dizendo que possuímos um relacionamento pessoal com um cadáver”.

Assim, o aspecto salvífico da fé é a fidúcia, que envolve a confiança e a dependência pessoal. Ao falar dos três aspectos da fé descritos pelos pensadores do século XVI, J. V. Fesko diz:

…a doutrina da fé comum em três partes, que consistem em notitia (os fatos), assensus (a compreensão), e a fidúcia (a confiança). Os humanos caídos são incapazes de abraçar Cristo de uma forma salvífica pelo poder da razão desamparada. Não há papel governante para a razão em aceitar a pessoa e a obra de Cristo. Por outro lado, quando alguém apresenta a verdade do evangelho, o destinatário deve ter uma compreensão racional dos fatos e o que esses fatos significam. Nesse sentido, a razão tem um papel na salvação.

Um dos Divinos de Westminster, John Arrowsmith, também viu a importância do livro da natureza. Ele escreveu: “O Livro das Escrituras, sem dúvida, tem a preeminência em importância em diversos graus; mas, aquele das criaturas; tem a precedência, e sobreviveu muito antes da palavra escrita”. 

A Natureza Proclama a Existência de Deus

Tendo falado brevemente do valor bíblico e histórico da teologia natural, o que devemos ver agora é: que exemplos temos de argumentos da teologia natural? Como disse, a teologia natural envolve o indivíduo usando a razão em cima dos fatos da revelação geral para chegar racionalmente à conclusão de que Deus existe. Nisso, existem diversos aspectos do mundo que apontam para a existência de um Deus. Alguns exemplos disso são:

– A origem do universo

– O ajuste fino do universo

– O ajuste fino da nossa região espacial

– A complexidade da vida

– A existência de uma Lei Moral objetiva

– A existência da consciência

Todos esses aspectos da natureza e do indivíduo apontam para a existência de um Criador e Designer do mundo e da vida, que é o fundamento da Lei Moral escrita no coração de todos os homens. Esse Ser é o que todo mundo chama de Deus. Alister McGrath colocou muito bem a forma como a natureza nos revela o Criador: “o mundo está tão ricamente sinalizado com indícios e sons do divino que os ateus simplesmente têm de diminuir a intensidade das luzes para dar à sua descrença uma oportunidade!”

Falando da glória de Deus na ciência, Stephen Meyer coloca de forma muito importante a papel da revelação geral em sua adoração a Deus:

Explorar as evidências científicas e históricas para a existência de Deus não é apenas um exercício cognitivo, mas também é, para mim, um ato de adoração. É uma forma de dar ao Criador o crédito, a honra e a glória que pertencem a Ele. Atribuir a criação a um processo meramente natural é uma forma de idolatria, a qual todos somos propensos. Todos nós temos a tendência de minimizar Deus, pensando e agindo como se nós não estivéssemos imersos em Sua criação […] Olhar para a evidência — na Natureza e nas Escrituras — sempre me lembra de quem Ele é. E me lembra de quem eu sou — alguém que precisa d’Ele.

Assim, a teologia natural pode fazer parte da nossa adoração a Deus, de modo que o uso correto do livro da natureza glorifica o Criador, exaltando-o como aquele que fez todas as coisas ao invés do acaso puro.

Conclusão

Concluímos, portanto, vendo que a teologia natural possui uma grande relevância nos aspectos da fé cristã notitia e assensus. Ela demonstra racionalmente a existência de um Deus Criador, mas não garante a confiança do individuo nesse Deus. Quanto a esse último aspecto, fidúcia, pode-se atribuí-lo apenas ao testemunho interno do Espírito Santo. Porém, se “desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus podem ser claramente vistos por meio das coisas criadas” (Rm 1.20), então deve fazer parte da fé cristã a reflexão racional acerca da natureza.

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Felipe Forti
Felipe Forti

Formado em Design Gráfico na FMU e em filosofia no Mackenzie, autor dos livros “A Verdade que Existe: amando a Deus com todo o intelecto” e “A Gênese em Gênesis: solucionando a controvérsia das eras”. Atualmente estuda Teologia no Mackenzie. É escritor nos blogs Acrópole da Fé Cristã e Olhar Unificado. Adora apologética e nas horas vagas gosta de jogar videogame.

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