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O protestantismo desde o Império se instaurou nos grandes centros urbanos, especialmente no Rio de Janeiro e São Paulo. Todavia, houve missionários que procuraram levar a fé protestante para o interior do país. Um caso muito peculiar do protestantismo no Império no interior de estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste foi o de José Manoel da Conceição.

Breve biografia de José Manoel da Conceição

José Manoel da Conceição era um padre católico que se tornou “o primeiro pastor protestante brasileiro”[1] e que intencionado a aprofundar seu conhecimento teológico debruçou-se sobre a literatura protestante em alemão a partir do editor Henrique Larmmert. Houve acontecimentos peculiares como sua negação em se confessar, a qual ele defendia para os fiéis católicos com reflexões do tipo “Eu e você precisamos nos confessar a Deus e não a homens”[2]. Essa perspectiva de discordância dos dogmas católicos e assimilação cada vez maior da teologia protestante fez com que, anos mais tarde, ouvindo as pregações do missionário presbiteriano Alexandre Blackford, José Manuel da Conceição abandonasse a Igreja Católica, se batizando em uma igreja protestante presbiteriana.

Conhecido como “o padre protestante”, Conceição propagou o protestantismo no interior de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, em cidades como Ibiúna, Sorocaba, Limeira, São José dos Campos, Aparecida, Jacareí, Pindamonhangaba, Mogi Mirim, Ouro Fino, Santa Ana, e outras cidades menores das províncias imperiais.

Mesmo tendo diversos companheiros para propagar a fé protestante, como Blackford e Simonton, ele acabou por incorporar métodos diferenciados dos protestantes estrangeiros, mostrando-se bem mais pragmático e pouco organizacional. José Manuel da Conceição não se fixava em uma cidade por muito tempo, era um “pregador itinerante”, fazia viagens e proclamava a fé protestante por um tempo imprevisível a cada cidade que passava. Com isso, deixou de receber apoio de agências missionárias e passou a se encontrar pouco com os líderes protestantes que se destacavam na época. “Não tinha havido um rompimento entre ele e seus companheiros, mas sua missão não era o ministério organizado e a propaganda confessional”[3], a peculiaridade de seu pragmatismo fez com que ele desse maior atenção a “um ministério de caridade e instrução religiosa entre os mais humildes”, transformando-se, ele próprio, em um homem materialmente pobre. Além disso, José Manuel da Conceição não procurava destruir os hábitos religiosos do povo brasileiro como um todo, aparentemente, ele planejava “uma reforma realmente brasileira, harmonizada com o temperamento e os hábitos do país”, e apesar de discordar das práticas do catolicismo brasileiro, reconhecia que, em muitos fiéis, havia uma “fé ignorante, mas profunda e sincera”.[4]

A fé protestante no império

O proselitismo religioso protestante no Império nos leva a algumas reflexões: Esses protestantes, a partir de uma abertura do Imperador que permitia a inserção do protestantismo no país, mesmo com diversas restrições jurídicas, procuraram por meio da distribuição de bíblias, contatos com pessoas de grande credibilidade política e social da época, pregações pelo país em templos, casas ou na rua, elaboração de veículos de imprensa, tradução de livros e construção de instituições de ensino e saúde, a propagação da fé protestante no país. Era comum, tanto os protestantes norte-americanos como os brasileiros, observar uma cosmovisão cristã que ia além da prática religiosa. Pessoas que proclamavam uma fé a partir de uma visão de que o país prosperaria nos cenários político, econômico e social a partir da inserção do protestantismo na sociedade.

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               O chamado “boom” protestante no século XIX fez com que cerca de 1% da população se tornasse protestante. Apesar disso, vimos que o protestantismo se propagou especialmente nas regiões do Rio de Janeiro e São Paulo, e foi mais bem recebido entre os de renda financeira estável, em geral a classe média ou alta. Ainda assim, não devemos ignorar que houve uma tentativa de comunicação desses protestantes com os populares, que aparentemente houve uma falta de assimilação dessa camada popular a esse modelo de fé diferenciada. José Manoel da Conceição parece ter sido, dos missionários retratados, o que mais procurou vivenciar a sua fé protestante entre os populares. Conseguiu ser o protestante nesse período que mais penetrou no interior e proclamou um protestantismo afastado das grandes capitais. Precisamos, é claro, considerar as suas particularidades, visto que ele era brasileiro, não tinha a ideia do “destino manifesto” em sua dinâmica religiosa e procurou fazer pontes entre o catolicismo popular e o protestantismo que havia abraçado. Mas, ainda assim, a abordagem do ex-padre foi algo particularizado e aparentemente não se iniciou daí um movimento protestante popular que melhor dialogasse com o brasileiro, ainda na maioria católicos, em suas diversas camadas sociais, embora talvez tenha sido um dos que mais se aproximaram de um bom diálogo com a religiosidade católica local.


[1]MENDONÇA, Antônio Gouveia. O celeste porvir: a inserção do protestantismo no Brasil. São Paulo: IMS, 1995, p.185.

[2]LEONARD, Emilie. Protestantismo brasileiro: estudo de eclesiologia e história social. Rio de Janeiro; São Paulo: Juerp/ASTE, 1981, p.57.

[3]LEONARD, Emilie. Protestantismo brasileiro: estudo de eclesiologia e história social. Rio de Janeiro; São Paulo: Juerp/ASTE, 1981, p.65.

[4]Ibidem.


Rafael Gama
Rafael Gama

Doutor em história na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e professor de história com especialidade em história do cristianismo, história das missões e história das religiões. Sou um servo e amigo de Cristo, que nas horas vagas se infiltra nos lugares mais obscuros na cidade procurando levar a única luz aos que estão cegos pela escuridão deste mundo. Contato: gama.hist@gmail.com

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