Introdução

Um dos erros mais comuns da atualidade é a noção de que as crianças são totalmente inocentes. Ora, elas certamente são inocentes no sentido de que não têm noção das complexidades do mundo adulto, das relações sociais e até da maldade dos outros. Elas tendem implicitamente a confiar nos outros, em especial em adultos. Contudo, isso não significa que nasçam sem pecaminosidade. Todo pai e mãe que observa de perto seus filhos pequenos logo identifica ações maldosas, atos de rebeldia e desobediência, birras e manhas. Por exemplo, mesmo sabendo que não pode mexer em um enfeite ao seu alcance, a criança pequena estica o braço para pegá-lo e olha sorrateiramente para os pais, testando a reação deles. A criança está claramente demonstrando que entendeu a regra (não pode pegar o enfeite), mas está desafiando as autoridades presentes para fazer sua própria vontade. Isso demonstra intencionalidade de errar. É uma desobediência consciente (no nível de entendimento da criança).

A repetição destas desobediências e rebeldias gera a necessidade de correção do comportamento. A Bíblia afirma que a disciplina afasta a estultícia (imbecilidade, estupidez) do coração da criança (Pv 22.15). Deixaremos para outro momento a discussão do problemático castigo físico (palmada e vara). O essencial é não deixar o erro intencional sem correção.

Há muitas maneiras diferentes de corrigir o comportamento de uma criança que não envolvem o castigo físico. Por exemplo, você pode usar um “cantinho do pensamento”, exigindo que a criança fique sentada e sem brinquedos refletindo no erro cometido. Ou você pode privá-la do acesso a coisas que gosta, quer sejam meios tecnológicos (como celular, tablet, tv, computador), quer sejam brinquedos preferidos (como uma bola ou boneca), quer ainda sejam comidas não essenciais que ela curte (como sorvete, bolachas ou sanduíches). Outra possibilidade é castigá-la por meio de tarefas a cumprir em benefício das partes lesadas pelo seu erro (“serviço à comunidade”).

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Obviamente, é essencial haver concordância do casal quanto à correção dos filhos, senão além de filhos mal-educados, o casal também terá problemas relacionais. Converse com o seu cônjuge sobre isso antes de surgir a necessidade da correção.

Anotações sobre a prática diária

Apresentaremos agora dez princípios para você debater com seu cônjuge e aplicar em sua família para a correção de filhos:

  • Todo o processo de educação dos filhos deve ser feito na presença de Deus. O Senhor deve ser o centro da vida de sua família. Desde cedo ensine à criança que ela é corrigida porque Deus a ama e porque seus pais a amam. Ambos desejam que a personalidade da criança se desenvolva segundo os parâmetros bíblicos, o que a levará a alcançar a vida abundante que se encontra no relacionamento íntimo com nosso Deus.
  • O momento de disciplina não deve gerar embaraço público. Por isso, sempre que possível, a confrontação deve ser feita em particular, não diante dos outros. Se isso não é possível (por exemplo, quando você está num supermercado), ache um cantinho mais isolado para conversar com seu filho; conforme a idade da criança, você pode sinalizar que a conversa mais séria será realizada depois, em casa.
  • A comunicação deve ser olho no olho, pois assim produz mais impacto. Ensine a criança a olhar para você enquanto você está conversando com ela. Enquanto ela fica em pé, procure sentar-se, ou agache-se, para conversar no nível dela. É importante que ela possa perceber todas as suas expressões faciais, que variarão conforme a situação (alegria, desaprovação, tristeza, etc.).
  • Fale em tom normal ou baixo. A criança deve aprender a escutar em silêncio o que você está comunicando. Se você precisa gritar ou falar alto para manter a atenção dela, algo está muito errado (mais em você do que nela).
  • A disciplina deve ser isenta de manifestações de ira. Se você não consegue controlar sua ira para ter uma conversa séria com seu filho, postergue a disciplina. A criança não deve associar a correção do erro à sua raiva. Ela não está sendo corrigida porque você se irritou, mas sim porque o que ela fez está errado, segundo as normas bíblicas.
  • Deve haver coerência e unidade entre os pais. Um não deve desmentir o que o outro ordena ou diz. Se há conflito de direcionamento, ele precisa ser resolvido entre o casal em particular, sem a presença da criança. Diante dos filhos, é preciso manter uma frente unida. Isso exige muita conversa para saber o que o outro tem falado e ordenado. A coerência é realmente importante. A pior coisa que pode ocorrer é um cônjuge desautorizar o outro na frente do filho, afirmando, por exemplo, que a disciplina foi muito dura (ou muito branda), ou até mesmo indevida. Se um dia isso acontecer, resolva com seu cônjuge em particular primeiro; o cônjuge que estava em erro deve procurar o filho e lhe pedir perdão pela disciplina incorreta. É claro, o cônjuge deve cuidar para que isso não ocorra mais, mostrando assim uma mudança nele também.
  • Mantenha a sua palavra. Se ameaçar, cumpra. Não ameace fazer o que você não tem coragem de cumprir. Por exemplo: “se você não guardar seus brinquedos, vou dar tudo para os pobres”. A criança logo percebe a inconsistência das ameaças vãs.
  • Corrija apenas aquilo que Deus considera um erro importante. Não corrija seu filho por acidentes ou incapacidades naturais à sua idade. Por exemplo, derrubar um suco ou quebrar um prato. Não corrija pequenas traquinagens (embora nem sempre devam ser incentivadas). Concentre-se nos problemas mais graves do coração (que é o que contamina o homem, Mt 15.11): orgulho (arrogância), mentira (tentativa deliberada de enganar os outros) e rebeldia (confrontação da autoridade com desobediência). Nem toda desobediência é fruto de rebeldia; esta é uma atitude de desafio da autoridade dos pais e precisa ser combatida com fervor, pois determinará o futuro do seu filho. Veja o excelente livro “Pastoreando o coração da criança”, de Tedd Tripp, da editora Fiel.
  • Ao repreender, ensine novamente a regra desobedecida. Peça à criança para verbalizar em suas palavras qual é a regra, de forma que você possa perceber se ela entendeu o que foi ensinado. Não discipline seu filho por desconhecimento das regras. Recorde que o primeiro passo neste processo é o ensino. Se você não ensinou, não pode cobrar.
  • Seja coerente e pratique seu discurso. Se você não faz, em geral não deve exigir que seu filho faça (isso é hipocrisia). E se você faz, em geral não deve proibir que seu filho faça. Obviamente, há aqui algumas questões básicas de comportamentos adequados à faixa etária de cada um. Às vezes, será necessário explicar ao seu filho que ele não pode fazer (ou deve fazer) algumas coisas porque é criança; quando se tornar adulto como você, poderá decidir de modo diferente.

Roteiro básico para correção de filhos

Para finalizar este texto, compartilhe um roteiro possível para você usar toda vez que precisar disciplinar seu filho.

  1. Leve seu filho para um ambiente isolado (por exemplo, o quarto do casal) e feche a porta.
  2. Explique qual é o seu papel no processo. Você é o agente designado por Deus para trazer direção e correção à vida do filho. Você precisa fazer isso, mesmo quando não tem vontade, porque Deus ordenou assim. Você faz parte de uma cadeia de comando; quando você não obedece às ordens de Deus, ele também o disciplina.
  3. Explique qual é o erro a ser corrigido. Sem ira nem gritos, identifique a ação errada da criança. Investigue os problemas mais profundos do coração, procurando determinar qual é a atitude incorreta por trás desta ação. Esclareça para a criança qual é o problema que você identificou e por que isso precisa de correção. Seu papel principal é o de guiar o coração da criança e de levá-lo de volta à presença do Senhor.
  4. Estabeleça medidas corretivas de acordo com a gravidade do problema (considere atenuantes e agravantes) e a sua reincidência. Procure fazer um juízo justo e equilibrado, do qual você não se arrependerá por ter sido passional (ou seja, confiado em sua emoção). Isso vale tanto para a excessiva “bondade” que deixa passar qualquer comportamento errado porque a criança é tão bonitinha e boazinha, quanto para a excessiva “severidade” que quer punir coisas menores que poderiam ser abonadas.
  5. O encontro corretivo deve assegurar que houve conscientização do erro cometido e arrependimento diante de Deus.
    1. Se há manifestação de arrependimento genuíno, você deve suavizar a sentença de forma proporcional. Se é “réu em primeira instância” (primeira ocorrência do erro), seja compassivo. Sempre se lembre de como Deus trata você em seus erros.
    2. Se há manifestação de rebeldia (em geral, com gritos, ataques verbais e/ou físicos do filho contra os pais, ou recusa em se submeter à medida corretiva), você deve endurecer a sentença de forma proporcional. A rebeldia nunca pode ser aceita! Lembre-se de que, aos olhos de Deus, ela é como a feitiçaria (1Sm 15.23)! Em casos reincidentes de rebeldia, você precisa buscar orientação específica de Deus e de especialistas. Veja o excelente livro “Filhos irados”, de Lou Priolo, da editora Nutra.
    3. Pode haver manifestação falsa de arrependimento. Às vezes, a criança aprende rápido o que é esperado dela, por isso pode fingir estar arrependida para seguir o “protocolo”. Verifique suas atitudes e examine o coração dela (até onde nos é possível fazer isso); se necessário, interrompa o encontro corretivo para buscar a Deus em oração e/ou consultar seu cônjuge sobre o assunto.
  6. Leve seu filho à presença de Deus. Ensine-o a pedir perdão a Deus pelo erro cometido. Ele também precisa ser ensinado a pedir perdão a todos os que foram envolvidos em sua conduta errada, o que deve ser feito após o encontro corretivo.
  7. Explique ao seu filho (todas as vezes) que seu papel sacerdotal como pai ou mãe é apresentar o coração dele diante de Deus para ser purificado. Após a oração de confissão dele, ore por seu filho e peça que o Senhor o perdoe (veja Jó 1.5), e que lhe dê forças para ter um coração justo e ser semelhante a Jesus.
  8. Demonstre amor na correção de filhos. Conecte-se fisicamente com a criança através de um abraço prolongado e beijos. O momento da correção passou. A criança precisa aprender que tudo foi resolvido na presença de Deus e no relacionamento com seus pais. Se foi caso de reincidência, tranquilize a criança ao explicar que as misericórdias do Senhor se renovam a cada manhã. Assim como somos perdoados inúmeras vezes pelo nosso pecado reincidente, o Senhor também manifesta amor e compaixão no caso dela.

Estes princípios e roteiro são fruto de nossa experiência nesta área e da leitura de muitos livros sobre o assunto. Analise o que foi apresentado. Confronte com a Bíblia. Ore. Pratique!

Acompanhe o blog de nossa igreja! Estamos com uma série sobre família!


    2 replies to "Guia para Correção de Filhos"

    • Avatar Elton Silva Coelho

      Boa Noite!

      Uma dica: vocês poderiam dar a opção de imprimir o conteúdo. Um exemplo legal disso é o do blog Voltemos ao Evangelho que vocês apoiam.

    • […] hoje, de modernidade. E ainda mais interessante é o fato de que todos tiveram um mesmo tipo de educação. Uma educação […]

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