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Em um post anterior, começamos a tratar do ciúme a partir da perspectiva bíblica. Vimos que a Bíblia fala do ciúme de Deus e dos seres humanos. Obviamente, o de Deus sempre se manifesta corretamente, mas o nosso pode ser pecaminoso. Por isso fizemos uma diferença entre o ciúme correto (zelo) e o errado (ciumeira). Falamos em eliminar a ciumeira e em fortalecer o zelo. Terminamos falando de um possível roteiro para enfrentar as situações de ciúme. É desse ponto que vamos continuar nossa conversa.

Roteiro básico para situações de ciúme

A percepção de que há algo errado no relacionamento conjugal é, geralmente, muito sutil e difícil de descrever de forma precisa. O radar do cônjuge desconfiado pode estar bem afinado, mas também pode estar corrompido por outros fatores que o levam a detectar ameaças inexistentes. Quando um dos cônjuges se depara com uma situação de ciúme, precisará distinguir sabiamente o que está acontecendo para saber se está manifestando zelo ou ciumeira. Como indicamos anteriormente, é bom inicialmente ponderar em silêncio e levantar informações preliminares sobre a situação que gera dúvidas no coração. De qualquer modo, o cônjuge que percebeu a situação duvidosa sempre deve verificar a necessidade de tomar medidas preventivas para proteger seu casamento. Se, após a ponderação inicial, a situação persiste como ameaça, é preciso colocar o assunto em conversa com o outro, seguindo alguns princípios salutares:

1) Tudo precisa ser colocado na perspectiva correta. Pratique o descanso em Deus.
2) O diálogo precisa acontecer em uma relação de transparência.
3) A confrontação precisa ocorrer em uma relação de cumplicidade.

Elaboraremos um pouco mais como usar estas três disciplinas para desenvolver o zelo.

Descanso em Deus

A ação essencial para combater a ciumeira é o descanso em Deus como Senhor soberano do relacionamento conjugal. Antes da D.R. (“discussão de relacionamento”), é preciso reconhecer que o Senhor está operando no relacionamento e está muitíssimo interessado no bom funcionamento da relação. Ele controla soberanamente todas as circunstâncias, enquanto nós não temos controle algum sobre elas.

Assim, toda vez que surgir a ciumeira e a ansiedade sobre o que o outro está fazendo, sentindo ou pensando, é preciso se voltar ao Senhor e lançar sobre ele toda preocupação e ansiedade. Memorize textos como: Sl 38.9 (“Na tua presença, Senhor, estão os meus desejos todos, e a minha ansiedade não te é oculta”); 1Pe 5.7 (“lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós”); Fp 4.6-7 (“Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus”); Sl 37.5 (“Entrega o teu caminho ao SENHOR, confia nele, e o mais ele fará”); 37.7a (“Descansa no SENHOR e espera nele”).

Somente o Senhor Deus pode resolver nosso medo e garantir nossa paz e alegria. (Para o medo, memorize Sl 56.3; Is 51.12; 41.10; Pv 18.10; 1Jo 4.18. Para a paz, Is 54.11-17; Sl 94.19). Ao orar sobre o assunto, peça que Deus revele sua verdadeira motivação no ciúme; é ela que determina se o que você está sentindo é ciumeira ou zelo. Relembre quem lhe deu o cônjuge e a quem ele pertence. Se o medo é de perder a sua “propriedade” e o amor que está recebendo agora, então sua motivação tem fundamentos egoístas e incorretos; é ciumeira. Se quer ajudar o cônjuge a vencer as tentações e proteger o relacionamento dado por Deus, é zelo.

Transparência

A conversa visa descobrir o que aconteceu a partir do relato do próprio cônjuge. O cônjuge deve ter a primazia da confiança e do relato, ou seja, sua versão deve ser considerada mais honesta e mais importante do que a percepção dos outros. O objetivo é identificar a ameaça ao casamento, por isso é importante entender como o outro percebe a situação.

Esta transparência precisa ser construída entre os cônjuges; não surge automaticamente. Envolve a decisão consciente de abrir mão de seus segredos e de sua privacidade. É não ter medo que o outro olhe seu celular ou leia seus e-mails. Quando a pessoa ciumenta adquire a confiança de que a outra pessoa é honesta e transparente, o medo de “cantos escuros” começa a sumir do relacionamento e a ciumeira se enfraquece.

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Uma situação complicada pode se desenvolver quando o cônjuge quer saber dos detalhes (especialmente sexuais) dos envolvimentos passados do outro antes do casamento. Dificilmente é saudável obter esses detalhes. É preciso entender, em primeiro lugar, que o erro cometido não foi contra o cônjuge (ainda inexistente), mas sim contra Deus; somente ele pode restaurar o que está no passado. Um cônjuge não pode resolver o passado do seu cônjuge; apenas o Senhor pode perdoar pecados. Toda ciumeira “retroativa” deve ser desestimulada e lançada aos pés da cruz. O cônjuge que teve tais relacionamentos no passado deve resolver sua situação com Deus e verbalizar ao parceiro que errou e pediu perdão; a partir daí, se o assunto for retomado, deve ser para expressarem juntos novamente que tudo foi resolvido diante de Deus e que o Senhor está restaurando todo o passado dos dois.

Cumplicidade

A cumplicidade retrata um companheirismo harmônico e complementar diante das diferenças do casal. Ela permite agir em conjunto contra o problema que atrapalha o relacionamento, pois o casal se percebe como uma dupla que luta contra o mundo externo. Não é uma luta de um cônjuge contra o outro, mas dos dois juntos contra aquilo que cria separação e desconfiança. Obviamente, essa luta se torna mais fácil quando Deus está presente no relacionamento; ele é a terceira dobra e o “cordão de três dobras não se rebenta com facilidade” (Ec 4.12).

Desta forma, na conversa sobre a situação de ciúme, a reação nunca deve ser de acusação ao cônjuge. É preciso enfatizar que o ciúme é um sentimento de proteção a favor do objeto amado e contra aquilo que está atacando o relacionamento. O inimigo não é o cônjuge, mesmo quando ele se sente tentado ou age errado. Nunca se esqueça de que o objetivo do seu ciúme é salvar o casamento, e não o de afundá-lo com ações que magoam o outro.

Aproveite essa situação dolorosa para se apegar ainda mais ao seu cônjuge e a Deus. Orem juntos por forças para vencer o problema, tanto da parte do cônjuge que se enrosca nessas situações quanto da parte do outro que fica enciumado pelo que aconteceu. Busquem soluções juntos e sejam francos e transparentes quanto ao que desejam que o outro faça nesses momentos.

Mais algumas sugestões

Segue uma sugestão prática que pode minimizar situações aparentes de ameaça: o casal pode combinar que sempre relatará ao cônjuge quando passar por qualquer situação que ameace a estabilidade do relacionamento. Isso inclui situações de tentação e de flerte. De forma mais clara, exemplifiquemos: se o marido se sente tentado no trabalho, deve trazer sua versão do ocorrido à esposa assim que puderem estar a sós para conversar e orar sobre o assunto. A reação da esposa não deve ser contra o marido, mas a seu favor, lutando para ajudá-lo a não cair em tentação. De modo similar, se a esposa recebe demonstrações de interesse romântico de alguém mais, deve trazer sua versão do ocorrido ao marido assim que puderem estar a sós para conversar e orar sobre o assunto.

A reação do marido não deve ser contra a esposa, mas a seu favor, lutando para ajudá-la a não cair em tentação. Ao se estabelecer esse parâmetro de confiança no outro, o cônjuge mais ansioso pode se dedicar mais ao exercício do descanso em Deus. O zelo não tem medo de compartilhar a pessoa amada com outros, nem fica ansioso com as possíveis ameaças do cotidiano; o cônjuge zeloso confia, mas permanece atento às ameaças reais. Obviamente, o cônjuge que está sofrendo tentação ou abordagens também deve tomar iniciativas preventivas imediatas.

Uma das medidas preventivas mais práticas é reforçar verbalmente o compromisso e o relacionamento que já tem com o cônjuge. Isso deve ser feito no momento da própria tentação. Por exemplo, se a tentação ocorre enquanto o marido está conversando com uma colega de trabalho, ele deve buscar inserir uma reafirmação verbal do seu compromisso conjugal na conversa. Dessa maneira, além de comunicar à colega sua indisponibilidade, ele também relembra seus próprios limites e seus objetivos de longo prazo. Outras medidas preventivas possíveis: afastar-se da tentação, orar a respeito (ainda que silenciosamente, se não dá para sair do local), compartilhar com companheiros de fé, evitar ficar sozinho com a pessoa, evitar contato físico (especialmente em particular), evitar a aparência do mal. Ao relatar o incidente à esposa, a realização dessas medidas preventivas reassegura à esposa o zelo do marido pelo relacionamento; fica minimizada a necessidade de ela expressar seu zelo.

Considerações finais

Para finalizar, retomemos aqui o papel da ira consumidora no casamento. Após as tentativas iniciais de resolução do conflito, às vezes é necessário tratar o problema em outro nível. Isso é ainda mais verdadeiro no caso de reincidências. Tal como o “duro amor” de Deus, que se separou de seu povo e o enviou ao cativeiro para que crescessem por meio da disciplina, às vezes é necessário tomar ações concretas punitivas ou restritivas para com o cônjuge, de forma a dar vazão ao lado irado do zelo. Algumas vezes essa dolorosa ação é necessária para produzir uma restauração posterior.

Enfim, o zelo é algo necessário para o bom funcionamento do relacionamento conjugal. Ele gera a proteção mútua contra os ataques externos, quer sejam ofensivas sexuais ou insinuações verbais contra a reputação do cônjuge.

Quando a relação se constrói no descanso em Deus, na transparência mútua e na cumplicidade, o ciúme perde sua força doentia e se torna sadio. O casal ingressará unido na luta contra aquilo que visa destruir o casamento e se fortalecerá em sua fé e dependência de Deus.


    4 replies to " Enfrentando o ciúme"

    • Avatar Ca

      E qdo um dos cônjuges não tem interesse em Deus e nem no outro, só quer saber de ser ator e famoso, escondendo todos os seus planos do outro cônjuge e colocando amigos em primeiro plano? Esse ciúmes é ciumeira vc saber q a cada dia q passa vê seu casamento descendo pelo ralo e ter q suportar o desprezo, a indiferença e a solidão q outro causa. Nesse mundo viemos pra passar por sofrimento, o q nos dá força é a graça de Deus, é saber q um dia Jesus virá e secará todas as nossas lágrimas

    • […] Quanto mais convívio, mais próximo, por isso deve receber mais amor. Não se trata aqui de paixão ou de emoções, mas de expressão concreta de serviço ao outro, colocando-o acima de nossos interesses, devoção […]

    • […] Apresentamos abaixo uma lista razoável de ideias para você expressar seu amor ao seu cônjuge. Não adianta tentar fazer tudo de uma só vez. Assim, vamos começar priorizando algumas atividades que você deve realizar periodicamente no relacionamento conjugal (por exemplo, a cada dia) para gerar felicidade ao seu cônjuge. […]

    • […] tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos.” João […]

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