O ciúme tem péssima reputação no meio evangélico, mas é um conceito que precisa ser resgatado e explicado corretamente. Como acontece com a ira, é possível ter ciúme sem pecar.

Definições iniciais

A compreensão de que o ciúme é sempre algo errado provavelmente se origina com os textos paulinos que nos exortam a não termos ciúmes na igreja: Rm 13.13 (“Andemos dignamente… não em contendas e ciúmes”); 1Co 3.3 (“Porquanto, havendo entre vós ciúmes e contendas, não é assim que sois carnais…?”); 13.4 (“…o amor não arde em ciúmes…”); Gl 5.19-20 (“Ora, as obras da carne são: …, ciúmes…”). Talvez a tradução “inveja” seja mais adequada aqui, porque estes textos tratam das relações internas da igreja e não do relacionamento conjugal. Simplificando bem as diferenças, podemos dizer que a inveja é um pesar, irritação ou cobiça pelo que o outro tem (ou é); já o ciúme consiste em não querer compartilhar o que já se tem. Por exemplo, Saul teve ciúme de Davi pela atenção dada pelo povo, pois a queria só para si (1Sm 18).

O vocábulo “ciúme” vem do latim zelumen e do grego zelos. Seu sentido primário é o de proteção feroz ou impetuosa de um relacionamento existente. É um estado de fervor passional e de ebulição que deseja exclusividade e tem profunda devoção ao objeto do amor. Ele faz muito sentido em uma relação de lealdade mútua e exclusiva entre duas partes, como no casamento ou na aliança com Deus. Para diferenciarmos a correta aplicação do ciúme de sua manifestação pecaminosa, vamos chamá-las respectivamente de zelo e ciumeira.

Vejamos como o ciúme se apresenta na Bíblia.

O ciúme de Deus

O ciúme (mesmo termo original de “zelo”) de Deus primeiramente aparece como reação à idolatria de seu povo e concretiza sua punição pela quebra de aliança pelos israelitas (1Rs 14.22; Sl 78.58; Ez 5.13; 23.25). Em muitos casos, equivale à manifestação da sua ira contra o pecado (Sl 79.5; Dt 29.20) e vingança contra seus inimigos (Na 1.2); em outros, pode suscitar sua compaixão (Jl 2.18). É o zelo compassivo de Javé que também produz posteriormente a restauração de seu povo (2Rs 19.31; Is 59.15-17; Ez 39.25), lutando contra os inimigos (Is 26.11; 42.13; Ez 38.19), protegendo Jerusalém (Zc 1.14; 8.2-3) e garantindo a vinda do Messias (Is 9.6-7).

Por seus pecados, no dia final da ira de Javé e do seu Cordeiro, a terra será consumida pelo “fogo do zelo” divino (Sf 1.18; 3.8), pois Javé é “fogo que consome” (Dt 4.24; 32.22). No NT, o tema é retomado em Hb 10.27 (o “fogo vingador” aqui é literalmente o “fogo do zelo”) e em 12.29 (“fogo consumidor”). Não há dúvida, pois, de que nosso Senhor é um Deus ciumento: “o nome do Senhor é Zeloso; sim, Deus zeloso é ele” (Êx 34.14; 20.5; Dt 6.15), que exige lealdade total e pune severamente a infidelidade do seu povo (Js 24.19; Ez 16.38-42). Paulo aconselha não provocarmos “zelos” nele (1Co 10.22), como fizeram os israelitas com seus ídolos (Ez 8.3-5; Dt 32.21).

Assim, o zelo divino tem dois aspectos: um fervor protetor do relacionamento exclusivo com seu povo e uma ira que pune quem trai este relacionamento. Nesse sentido, é um ciúme correto que não é pecado.

O ciúme humano

O texto bíblico fala também que o crente pode ter zelo por Deus (Nm 25.11; 1Rs 19.10; At 22.3; Rm 10.2), pela sua casa (Sl 69.9; Jo 2.13-17) e por sua palavra (Sl 119.139; At 21.20). Paulo manifesta zelo por seus discípulos (2Co 11.2) e estes por ele (2Co 7.7). O zelo humano, contudo, pode exceder os limites (compare 2Rs 10.16 e Os 1.4).

Em certos momentos, o crente pode manifestar ciúmes quanto ao cônjuge (Nm 5.14; Pv 6.34). Essa manifestação é saudável sempre que espelha o ciúme de Deus que, como vimos, tem dois aspectos: um fervor protetor do relacionamento exclusivo e uma ira consumidora daquele que está traindo o relacionamento. Vamos denominar esta expressão correta do ciúme de zelo.

Todavia, quando o ciúme é exercido incorretamente, ele se torna pecado. Vamos chamar essa expressão incorreta do ciúme de ciumeira. Esta é doentia, pecaminosa, agressiva e abusiva, tentando controlar todos os detalhes da vida do outro. É possível consertar essa enfermidade do relacionamento? Sim, passemos a isso, então.

Eliminando a ciumeira

Para consertar essa enfermidade do relacionamento, é preciso tomar dois passos: entender as causas do ciúme doentio (ciumeira) e aprender a exercer o ciúme sadio (zelo).

A ciumeira revela inseguranças íntimas do parceiro quanto às suas qualidades como pessoa; além disso, revela falta de confiança no parceiro e também em Deus. Na maioria das vezes, a ciumeira reage contra a percepção de ameaças inexistentes; ou seja, há uma incorreta interpretação dos fatos que leva a desconfiar do parceiro. Um claro exemplo das complicações produzidas pela ciumeira se revela em Otelo, de William Shakespeare, pois o protagonista mata sua amada enlouquecido por uma ciumeira maleficamente incentivada por Iago através de mentiras, insinuações e comunicações distorcidas. É nessa peça que Shakespeare fala do ciúme como “monstro de olhos verdes”.

Fica evidente a importância da boa comunicação aqui; o ciumento precisa aprender a não chegar a conclusões de modo precipitado. Embora todo cristão deva se desviar do mal (2Tm 2.22; cf. Jó 1.1,8; 2.3), nem sempre é possível evitar a “aparência do mal” (1Ts 5.22), o que gera às vezes conclusões bem erradas. Aqui é necessário enfatizar a importância de levantar o que realmente aconteceu e de exercer confiança no outro, minimizando toda especulação e ouvindo (e priorizando) o relato do cônjuge sobre o ocorrido. O cônjuge deve sempre ter o benefício da dúvida, ou seja, ele é inocente até prova concreta em contrário.

Outra percepção que o casal precisa desenvolver é a de que o relacionamento tem flutuações de intimidade, por causa da tensão entre a identidade individual de cada um, por um lado, e o desejo por intimidade com o cônjuge, por outro lado. Não há necessidade de ciumeira pelo distanciamento temporário e natural do casal. Além disso, a ciumeira muitas vezes se manifesta como um desejo de “possuir” o outro e afirma “você é meu/minha”. Porém, o verdadeiro amor se dá primeiro, e prefere afirmar “eu sou dele/dela”. A “posse” conjugal se deriva da entrega mútua, não da exigência ciumenta de um dos cônjuges. Então, a tentativa de “possuir” o cônjuge ou controlar os movimentos do parceiro só faz aumentar a desconfiança e gera afastamento; o verdadeiro amor confia e dá, em vez de exigir. O relacionamento fica firme quando os dois escolhem permanecer nele (e não por imposição); por isso é uma boa ideia que os dois expressem regularmente seu compromisso de fidelidade mútua.

Fortalecendo o zelo

Para eliminar a ciumeira da vida cristã, precisamos focar na construção do zelo no relacionamento. O ciúme é saudável no relacionamento quando instiga a proteção do relacionamento contra os ataques externos, ao mesmo tempo em que fortalece a confiança mútua e a intimidade do casal. Tal como o ciúme divino, no casamento o zelo tem um objetivo claro e principal: manter a exclusividade do relacionamento conjugal contra qualquer ataque externo. Por isso ele é “duro como a sepultura” (Ct 8.6), pois expressa a força feroz do amor verdadeiro. Tal como, proverbialmente, a mãe ursa protege seus filhotes com ferocidade, assim o ciumento se porta com ira ao ver seu relacionamento ameaçado por fatores externos. Nesses momentos, o zelo pode manifestar uma ira destruidora contra aquilo que causa dano ao relacionamento. Percebemos um exemplo dessa fúria na reação do Senhor contra seu povo, chegando até a “divorciar-se” dele: “por causa de tudo isto, por ter cometido adultério, eu despedi a pérfida Israel e lhe dei carta de divórcio” (Jr 3.8; cf. Os 2.2-13; 9.10-17).

Vejamos algumas situações que podem despertar ciúmes:

  • Um dos cônjuges percebe que o outro está sendo abordado romântica ou sexualmente por alguém fora da relação (algum colega, familiar ou um completo estranho).
  • Um dos cônjuges percebe uma ação do outro que parece comprometedora.
  • Uma pessoa amiga, às vezes genuinamente preocupada com o relacionamento, denuncia um comportamento suspeito de um dos cônjuges.
  • Um dos cônjuges confessa que ficou interessado em outra pessoa.

Em alguns casos, é mais sábio a princípio ficar calado analisando a situação e não dar muito peso ao que é percebido ou relatado por outros, especialmente quando se percebe que o interesse dos outros não é a edificação. Ao ser confrontado por seus inimigos com ciladas e engano, Davi prefere ficar calado e esperar em Deus (Sl 38.12-15). Muitas vezes essa é a atitude mais correta diante da fofoca de pessoas amigas que visam minar o casamento.

Fica aqui também a sugestão de usar dramatização ou suposição de situações de ciúme. Isso pode ajudar o casal a se preparar melhor para enfrentar essas situações, tanto para evitar a ciumeira quanto para desenvolver o zelo. Em casos mais graves, pode ser preciso que o ciumento anote um roteiro a seguir para vencer cada tipo de situação que costuma enfrentar.

Veremos mais algumas sugestões em outro momento. Espero que essa conversa inicial o ajude a pensar no assunto. Não deixe de procurar ajuda dos pastores e presbíteros se está com problemas nesta área. Não perca as esperanças.

Bibliografia consultada

CALVINO, João. Institutas da religião cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 1984. Veja 2.8.18.

PACKER, J. I. O conhecimento de Deus. São Paulo: Mundo Cristão, 1996. Capítulo 17.

ELLISON, Craig W.; MAYNARD, Edward S. Healing for the city: counseling in the urban setting. Eugene: Wipf and Stock, 2002.


    1 Response to "É possível ter ciúme e não pecar?"

    • Enfrentando o ciúme | Jonathan Hack

      […] Em um post anterior, começamos a tratar do ciúme a partir da perspectiva bíblica. Vimos que a Bíblia fala do ciúme de Deus e dos seres humanos. Obviamente, o de Deus sempre se manifesta corretamente, mas o nosso pode ser pecaminoso. Por isso fizemos uma diferença entre o ciúme correto (zelo) e o errado (ciumeira). Falamos em eliminar a ciumeira e em fortalecer o zelo. Terminamos falando de um possível roteiro para enfrentar as situações de ciúme. É desse ponto que vamos continuar nossa conversa. […]

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