Neste artigo vamos dar continuação ao tema do artigo passado, clique aqui para lê-lo, a fim de nos aprofundar mais ainda sobre este importante tema que é a obra do Espírito Santo na vida das pessoas. Então, se você ainda não leu a primeira parte, vale a pena dar uma olhada!

Capítulo I – Introdução

A essência da obra do Espírito Santo no corpo de Cristo é diferente de sua obra no indivíduo. A Igreja é completa na vontade divina com seu destino e curso preparados por Ele e divinamente predestinada e atraída pela vontade onipotente de Deus. No homem, Deus colocou forças morais atreladas a sua natureza, que por sua vez coloca obstáculos infindáveis no caminho do homem, a qual Deus se adapta por sua graça para manifestar o seu amor. Esse amor é demonstrado em Cristo de maneira tão surpreendente que é irresistível aos eleitos de Deus sem possibilidade de explicação de como esse alcance aconteceu, definido então como uma essência misteriosa.

O derramamento do Espírito Santo é o acontecimento subjetivo que coroa todos os grandes eventos da salvação, enquanto que em pessoas individuais isso ocorre objetivamente. Ele trabalha a nossa santificação, conduz a obra de Deus até a consumação, dá a vida e glorifica os pertencentes a Cristo distribuindo seus tesouros.

Na ordem da Criação, as coisas foram ordenadas e depois criadas, assim Deus conhece mais intimamente o homem do que ele próprio, Ele nos conhecia antes de nossa existência. A graça então, é uma unidade, move-se incessantemente em direção a glória dos filhos de Deus no dia do Senhor.

Frequentemente falamos sobre conversão, justificação, regeneração, santificação e outros, entretanto, muitas vezes não compreendemos a obra peculiar do Espírito Santo dessas realidades espirituais, mas aplicamos com exteriorização pela eloquência linguística, isso revela o orgulho e a auto exaltação e expomos Cristo no mesmo nível que Aristóteles, por exemplo, como um mero mestre da dialética. O Evangelho não perdoa pouca profundidade.

Embora a obra do Espírito seja de suma importância, ela não se esgota nos indivíduos. Sua atividade neles deve ser observada de modo cuidadoso.

Outra questão pautada pelo autor é: o que existiu ou existe no homem que levou a ser criado a imagem de Deus? Após discorrer sobre a quem essa imagem e semelhança de Gênesis 1:26,27 diz respeito, ele nega o fato que poder ser aos anjos ou apenas a segunda pessoa da Trindade e ressalta que em concordância com o resto das Escrituras diz respeito à Trindade como referência à imagem e semelhança do homem.

O homem restaurado, que realiza o propósito divino, deve ser prestigiado, pois Deus o fez conforme a sua imagem e antes que o pecado o arruinasse foi ele um brilho da beleza divina. Trata-se de uma ambiguidade, o mesmo pecador que não tem nada bom e digno retém características da imagem de Deus. A queda do homem não postergou sua natureza original, mas reteve-a, somente suas ações foram corrompidas e voltadas contra Deus. Devemos distinguir a natureza humana como organismo e a direção dela que é a justiça moral, esta por sua vez foi desviada. Sobre isso, temos 4 posicionamentos na história:

Roma (De acordo com Belarmino):
– O homem é formado por carne e espírito
– A imagem divina é estampada parcialmente na carne e principalmente no espírito com sede da consciência moral e racional;
– Há conflito entre carne e espírito;
– O homem tem inclinação para pecar, entretanto não peca enquanto só for um desejo não consumado;
– Deus, por sua graça, deu ao homem a justiça original como válvula de segurança contra o pecado;
– O homem lançou para fora de si essa justiça e agora despido inclinou-se a pecar, visto que seus desejos são pecaminosos.

Socínio e Armínio:
– Os socinianos não acreditavam na divindade de Cristo antes de sua ressurreição
– Para ele, ser filho de Deus estava ligado ao domínio que Deus delegou a Adão. Ou seja, sua imagem e semelhança estava na autoridade.

Luteranos:-
É um meio-termo entre católico romano e reformado;
– A semelhança real está na alma, na justiça original, e não na natureza.

Reformados:
– A imagem e semelhança como uma, sendo além da justiça original, também a essência, estado e natureza. Ou seja, a integralidade humana reflete a imagem de Deus;
– Os atributos do homem são reflexos finitos, são estampa dos atributos infinitos de Deus.             

Para os neo- köhlbrugianos o homem não é portador da imagem divina, mas por um ato divino ele foi colocado nela; o homem não tinha brilho até Deus coloca-lo na sua gloriosa imagem, então ele parecer belo é um processo de irradiação. Esse conceito é desmascarado com a própria exegese do texto, que analisado o texto no original percebe-se o termo de imagem e semelhança usado para herança genética de semelhança entre pais e filhos. Böhn afirma que nem mesmo o próprio Cristo antes da ressurreição tinha a imagem de Deus, e embora suas explicações sobre justiça original fossem muito benéficas, suas teorias sobre imagem e semelhança falharam.

Em Orígenes e grande parte de simpatizantes a imagem do homem é na verdade a de Cristo e essa ideia é rebatida por Agostinho, Calvino e Voetius. Para isso usamos Romanos 8:29, 2 Coríntios 3:18, 1 Coríntios 15:49, Efésios 4:13 e 1 João 3:2. A mulher é a glória do homem, o homem é a imagem de Cristo e Cristo é a imagem de Deus. Ou seja, o homem é a imagem do Deus triúno, existe uma relação entre as três pessoas da trindade ao dizer “façamos o homem à nossa imagem”.

Em relação a Adão, compreendemos que ele era bom em seu estado, o que difere de seu grau de desenvolvimento e à sua condição, ele era completamente santo e perfeitamente justo antes da queda, pois ele possuía uma relação com Deus, e esta só poderia ser realizada se ele estivesse sob estas condições. Essa ideia não é muito ensinada, pois o conceito é que santidade entra em conflito com o pecado.

Capítulo II – O Pecador a ser trabalhado pelo Espírito Santo

A questão é onde o pecado surgiu. Biblicamente o pecado surgiu em Satanás, um ser sem corpo, logo compreendemos que o pecado não é material. Sobre isso, filosofias pagãs influenciaram esse ponto de vista, levando em conta que o pecado era material, pois as Escrituras mencionavam a carne nessa relação, mas na realidade o termo “carne” sugere a natureza humana completa; se ignorarmos isso e aderirmos a ideia de pecado material, seguiremos a filosofia de “alma boa, corpo ruim” que tem se infiltrado cada vez mais na atualidade. Essa teoria foi ressaltada por Mani, que gerou o Maniqueísmo, acrescentava que o pecado é inerente e inseparável dos músculos e sangue, beirando o materialismo. Sua igreja era praticamente um laboratório de química. Até que dessa teoria chegou a ideia de pecado herdado materialmente. Apesar da Igreja Reformada concordar com o pecado herdado pela Confissão, esse é um pecado herdado metaforicamente e não de maneira material.

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O pecado não é uma mera negação, como Böhn e Mani defendiam sendo uma ausência ou uma falta, mas é emanar a corrupção e a autodestruição. Nossa natureza não permaneceu imutável, mas tornou-se corrupta. O pecado afetou toda a economia do ser, tonando os sentimentos pervertidos, a vontade paralisada, a imaginação poluída, os desejos impuros e seus caminhos maus, mesmo que não seja aos nossos olhos,

Juntamente com o pecado, a culpa também aparece nesse quadro e apesar de serem considerados sinônimos, são diferentes. Kuyper identifica como pecado “(…) qualquer forma de conformidade de um ato, pessoa ou condição para com a lei divina;” e como culpa “transgressão por ato, pessoa ou condição sobre o direito divino” (p. 292). O pecado reside em nós, embora não se refira ao nosso relacionamento com Deus, já a culpa (gerada pelo pecado) se refere à nossa relação com Deus. Para resistir à transgressão de seus direitos, Deus aplica a punição. Conclui-se que o pecado, culpa e punição andam sempre juntos.

O homem possui sua essência enganosa ou verdadeira, não porque sua natureza possua a falsidade ou a verdade como matéria, mas porque houve uma modificação da qualidade de sua essência. A bondade é uma herança de Deus e não algo inerente ao ser humano, por exemplo.

No caminho da discussão, o termo seguinte é morte, decorrência do pecado. Morte é a remoção do dom de elo com a vida, sendo essa um princípio orgânico inerente ao organismo. Uma alma morta não é extinguida, contudo continua a existir, esta suscetível a vivificação e animação que é a comunhão com o Espírito Santo, e quando isso acontece dá-se o nome de regeneração, pois caso contrário a alma está morta em delitos e pecados, e isso acontece mesmo que o corpo esteja trabalhando vitalmente, essa morte pode ser instantânea.

Capítulo III – Graça preparatória

A graça preparatória deve ser estudada pelo conhecimento de Deus que não deixaria o pecador padecer pro si mesmo, “Com amor eterno te amei”. Deus o planejou antes que viesse à existência, ou seja, a salvação é uma obra eterna de Deus, o que confirma a doutrina da eleição e predestinação. Ele prepara o indivíduo e seu caráter para executar as tarefas que Ele o designou, é evidente que Deus concede graça ao seu eleito, mesmo no seu período de alienação. E decorrente dela o indivíduo passa por três níveis de gratidão:

– Gratidão imediata do período de conversão;
– Gratidão pela graça da eleição eterna;
– Gratidão pelo reconhecimento da operação da graça preparatória que mesmo no período de trevas zelava pela sua alma.

Não significa que Deus não ligue para o pecador no seu tempo de alienação, também não significa que a obra nos não eleitos se equipara a obra salvífica da graça. Se uma pessoa está morta, mesmo que tenha experimentado do dom celestial, significa que a vida não foi acesa em sua alma. A graça preparatória precede a nova vida. Por isso, a graça preparatória só alcançará quem de fato um dia terá a alma vivificada de uma vez por todas.

O que precede a reunião da integralidade humana com o Espírito Santo é a graça preparatória. Ou seja, ela não é uma ação peculiar do Espírito Santo no indivíduo como a graça salvífica, por exemplo.

Capítulo IV – Regeneração operada pelo Espírito Santo

O sentido amplo da palavra Regeneração diz respeito à mudança total efetuada pela graça, mudando do estado de morte para a glória. O sentido limitado diz respeito ao ponto de partida no ato de Deus vivificar o eleito. Alguns igualam regeneração a primeira graça, contudo para entender as diferentes operações da graça precisamos observar os seguintes estágios:

  • A implantação do novo princípio de vida
  • A guarda do princípio de vida implantado
  • O chamado
  • Convicção do chamado
  • Conversão
  • Santificação
  • Redenção completa

A operação da graça começa com a vivificação dos mortos, passando pela justificação, conversão, santificação, e finalmente para a glorificação. A Igreja Reformada foi a primeira a pregar que o eleito é vivificado mesmo antes do batismo cooperando assim para a educação das crianças de famílias reformadas, por exemplo.

Reconhecemos 4 categorias de pessoas na igreja:
– Eleitos regenerados antes do batismo;
– Eleitos não apenas regenerados na infância, mas amadurecidos e invisivelmente convertidos;
– Eleitos nascidos de novo e convertidos mais tarde;
– O não-eleitos (joios).

Partindo do pressuposto que uma pessoa não regenerada é surda e cega pela corrupção, a obra da redenção começa com enfoque na natureza do pecado e na incapacidade do pecador, isso revela que ele não tem nenhuma parcela na ação regenerativa, sendo essa então, obra completa de Deus.

Na regeneração o ser não recebe um novo ego, permanece com a mesma essência, a natureza do ego ou personalidade é mudada, embora ainda opere por meio da antiga natureza.

Existem estágios de regeneração:

  1. Quando o Senhor planta a nova vida no coração morto;
  2. Quando o homem nascido chega à conversão;
  3. Quando a conversão se funde com a santificação;

Todos esses estágios são feitos apenas por Deus. Para crer é necessário fé e esta depende da pregação da palavra. A fé é empregada no primeiro estado da regeneração, entretanto só é comunicada no segundo estágio. Um artigo de fé importante é a união mística com Cristo, as Escrituras usam o termo “enxerto” para a regeneração em Cristo e como ramos somos implantados nele. Uma ligação entre uma criatura pecadora e um Criador santo que isso rebate e tese de uma teologia ética, que ofusca a essência da questão, os éticos sugerem que:

– A Encarnação de Cristo teria ocorrido mesmo se Adão não tivesse pecado;
– Ele é mediador não só entre o pecador e o Deus santo, mas entre o finito e o infinito;
– As duas naturezas se misturaram, sendo divino-humano;
– Essa natureza é comunicada aos crentes também.

O problema da questão é o uso do termo “divino-humano” que é relacionado ao panteísmo, que ilegítimo e totalmente anti-bíblico, resultando em teosofia e essa interfere até mesmo no modo em como vemos a igreja visível. A união com Cristo revela que é um decreto de Deus; por meio da encarnação; começa quando aparecemos regenerados; quando somos vivificados e finalmente na morte.


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