O último livro da Bíblia, o Apocalipse, escrito pelo apóstolo João, é um prato cheio para quem gosta de encontrar significados ocultos escondidos na Bíblia. Além das Escrituras, por si só, serem o livro religioso mais intrigante já escrito, a temática do Apocalipse é a cereja do bolo para os curiosos acerca dos acontecimentos que ocorrerão nos últimos dias, especialmente se falarmos do 666.

O objetivo deste artigo não é suscitar polêmicas, mas desmitificar o que chamamos de “mitologia apocalíptica”. A Doutrina Reformada não é famosa por ser “novelesca”, ou “hollywoodiana”, mas é conhecida sobretudo por seu apego às Sagradas Letras. No decurso das próximas linhas, tenhamos em mente a máxima da Confissão de Fé de Westminster de que “a Bíblia interpreta a Bíblia”.

O que não é o 666

 O gênero literário em que foi escrito o livro de Apocalipse é muito peculiar, trata-se de um híbrido de literatura apocalíptica, profética e epistolar. O que faz com que não haja, segundo conclui Blomberg, “maneira alguma de predizer com antecedência até que ponto uma obra dessas será literal ou figurada” [1].

Muito foi dito e especulado acerca do significado por trás do número “666”, cabe a nós olharmos para o texto bíblico onde ele é mencionado:

Vi ainda outra besta emergir da terra; possuía dois chifres, parecendo cordeiro, mas falava como dragão. […] A todos, os pequenos e os grandes, os ricos e os pobres, os livres e os escravos, faz que lhes seja dada certa marca sobre a mão direita ou sobre a fronte, para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tem a marca, o nome da besta ou o número do seu nome. Aqui está a sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Ora, esse número é 666. Ap 13.11, 16-18 – ARA.

O contexto imediato deste texto começa no capítulo 12, e abrange a chamada “trindade satânica” que compreende o dragão (12.1-17), a primeira besta (13.1-10) e a segunda besta (13.11-18). Se você estranhou o nome “trindade” para nos referirmos a Satanás, lembre-se do que Paulo escreve aos coríntios: “E isso não é de admirar, pois até Satanás pode se disfarçar e ficar parecendo um anjo de luz (2Co 11.14 – NTLH)”.

Ter isso em mente é fundamental para entendermos o significado deste número. Sugiro que se faça uma leitura do início do capítulo 12 até aqui para que o leitor perceba a enorme quantidade de paralelos existentes entre a “trindade satânica” e a “trindade divina”. De modo semelhante, o selo da besta é a forma de Satanás imitar o selo que Deus pôs em seus filhos antes da grande Tribulação (Ap 7.3).

Voltando ao texto atentemos para algumas coisas. Ele fala de uma “certa marca” sobre a mão direita ou sobre a testa e fala também que ninguém pode comercializar sem a marca ou o nome da besta ou o número do seu nome. Percebam que são três as coisas que permitem comprar e vender e que o número “666” é apenas o número do seu nome, não necessariamente a marca da besta.

As línguas hebraica e grega fazem uso de letras para indicar numerais correspondentes. A sugestão mais antiga é que o número “666” diga respeito ao imperador romano Nero César (54 a 68 d.C.) [2], uma vez que a transliteração de seu nome, em hebraico, somando-se o valor correspondente de cada letra totaliza 666. Este exemplo já é suficiente para demonstrar quão temerário pode ser esse tipo de interpretação. Primeiro porque o Novo Testamento, inclusive o livro de Apocalipse, foi escrito em grego e segundo porque o nome do imperador precisou ser adaptado para a língua hebraica de uma maneira incomum a fim de que a soma desse certo.[3]

Hollywood ironiza a numerologia no filme “The Number 23” [4]. Neste filme, o protagonista, vivido por Jim Carrey, é atormentado por esse número onde quer que esteja. À medida que o filme avança o telespectador começa a sentir-se incomodado tamanha a “forçação de barra” que os roteiristas fazem para que o número 23 encaixe e esteja presente em absolutamente tudo em torno do protagonista. Segundo G. K. Beale, mais de cem nomes foram propostos só na Grã-Bretanha entre 1560 e 1830. Até o nome de Hitler já foi calculado para totalizar 666[5]. A imaginação do interprete desconhece limites.

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O que de fato significa este número

Tendo isto em vista, toda tentativa de se atribuir valores numéricos ao nome de qualquer personagem contemporâneo ou associar a marca a qualquer artefato tecnológico da modernidade é perder de vista o simbolismo que João usou e que devia ser perfeitamente compreensível para seu público original.

Todavia, não há como ignorar o simbolismo de alguns números bastante utilizados por João no processo de escrita do Apocalipse. Um destes números é o número 7, considerado pelos judeus como o número da perfeição e, portanto, associado a Deus. Como o diabo tem a tendência de copiar e imitar a Deus, vemos no número 666 mais uma tentativa de ser como a trindade, mas sem nunca conseguir se igualar a ela por causa de sua completa imperfeição.

Uma curiosidade que o leitor pode achar interessante é que o sexto selo, a sexta trombeta e a sexta taça descrevem o juízo de Deus sobre os seguidores da besta. Ao passo que, o sétimo selo e a sétima taça descrevem juízos que resultam no estabelecimento do reino e a sétima trombeta descreve o reino eterno de Cristo [6].

Por fim, o apóstolo João faz uma alerta, que deve servir para mim e para você nos dias que vivemos: “aqui está a sabedoria: aquele que tem entendimento calcule o número da besta”. Com isto João não está orientando e incentivando uma busca desenfreada por descobrir alguém que tenha as letras de seu nome somadas 666. A sabedoria consiste em discernir acerca do que é perfeito daquilo que é apenas uma cópia falsa e barata do que é verdadeiro.

Meus irmãos, não se deixem enganar. Ouçam a voz que ecoa das Sagradas Escrituras: “Este é o caminho, andai por ele (Is 30.21 – ARA)”.


[1] BLOMBERG, Craig L. Introdução de Atos a Apocalipse: uma pesquisa abrangente de Pentecostes a Patmos. Trad. Marcio Loureiro Redondo. São Paulo: Vida Nova, 2019. p. 666.

[2] Para saber mais recomendamos a leitura do verbete “Nero” em: TENNEY, Merrill C. (Org.). Enciclopédia da Bíblia. São Paulo: Cultura Cristã, 2008. Vol. 4. pp. 497-500.

[3] Para saber mais recomendamos a leitura de Craig L. Blomberg, op. cit, p. 704.

[4] Disponível em: <https://www.imdb.com/title/tt0481369/>.

[5] BEALE, G. K. Brado de vitória. Trad. Paulo Sérgio Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2017. p. 287.

[6] BEALE, G. K. Op. cit. p. 288.

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Marcos Almeida
Marcos Almeida

Marcos Danilo de Almeida, natural de Glória, interior de Sergipe. É bacharel em Direito e especialista em Penal e Processo Penal. Tem formação missiológica pelo CFM (APMT-SP) e CTM (IBEL-MG). Atualmente é seminarista no Seminário Presbiteriano José Manoel da Conceição - JMC.

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