O presente trabalho busca demostrar como a Lei de Deus ainda é útil aos cristãos em nossos dias. Ele visa acrescentar conhecimento teórico e prático para todo crente em sua jornada cristã, assim como esclarecer aos teólogos e pastores a necessidade de abordar a Lei de maneira adequada para glória de Deus e a santificação da Igreja.

A lei moral é ordenada por Deus para que povo pudesse obedecê-la e andar em seus caminhos. Como o salmista nós diz “A lei do Senhor é perfeita e restaura a alma;” (Sl.19.7.). Portanto ela é o meio pelo qual o cristão busca obedecer a vontade de Deus, ela é a expressão do caráter divino. Deus se revela em sua lei, sendo ela um princípio eterno para o viver do homem. A lei é o caráter de Deus expresso no homem, como o apóstolo Paulo diz “Estes mostram a norma da Lei gravada no seu coração” (Rm.2.15), deixando claro que, mesmo que o pecado tenha corrompido a natureza humana e manchado o entendimento do homem com respeito à lei, este caráter continua a ecoar dentro de todo homem criado por Deus. A Lei se torna fundamental para vida na terra, assim como um meio necessário para a compreensão do verdadeira do homem criado a imagem de Deus.

A lei foi dada ao povo de Deus como um pacto. Deus deu a lei para que o povo pudesse se relacionar com ele, dando promessas e bençãos. A lei tinha um proposito especial de preparar o povo para Cristo Jesus. Jesus seria aquele que cumpriria a lei de maneira verdadeira e plena. Jesus seria aquele que não viria revogar a lei, mas cumpri-la de maneira adequada. Jesus ensinaria os cristãos a viverem por meio da lei de maneira verdadeira.

A lei deve ser encarada como fundamental no viver do homem, e foi exatamente este o entendimento que os reformadores tiveram. João Calvino ao falar a respeito dos atributos de Deus, e de como as Escrituras revelam a Deus, se utiliza da Lei, como expressão do caráter divido. Mais tarde isso ficaria tão claro, que várias obras do seguimento reformado calvinista, são orientadas pela Lei de Deus encontrada especialmente nos dez mandamentos. Os símbolos compostos em Westminster são um exemplo claro deste uso, tanto nos catecismos, quanto na Confissão de Fé, temos capítulos correspondentes a Lei de Deus, aonde encontramos uma exposição dela, como o intuito de ajudar os crentes a utilizarem-se dele de maneira digna.

A lei se torna de um dos meios fundamentais, servindo de padrão ético e moral para o viver cristão, um meio de graça dado por Deus para que o cristão seja agraciado e se deleite em um viver que agrade a Deus. Portanto este trabalho tem como enfoque restaurar e demonstrar um entendimento adequado da lei para o crente em sua vida.

A Lei

Deus revelou sua vontade através da Lei, para que homens santos, na busca santificação de suas vidas pudessem viver em retidão diante de Deus. A Lei dá prazer ao homem interior (Rm.7.22), através dela os crentes são guiados para viver a vontade de Deus. Os teólogos de Westminster entenderam perfeitamente este conceito, eles acreditavam que a Lei de Deus na vida do crente continua levando-o a Cristo; Faz com que ele seja mais feliz e caminhe com gratidão [1]. A Lei de Deus nos ajuda a estar mais próximos de Cristo. Nós não estamos sem lei, mas vivemos debaixo da lei de Cristo [2]. A lei assume um papel importante na vida dos crentes [3], possuindo a autoridade fundamental para uma vida santa. A Lei nos ajuda a buscar a imagem de Deus, foi este o entendimento do puritano William Ames, quando falando sobre a santificação disse que “Seu fim é a pureza da imagem de Deus (…) conforme a Lei de Deus” [4].

Portanto fica claro que a lei de Deus deve ser utilizada por nós a fim de buscarmos uma vida santa. A Lei dada por Deus, encontrada nas duas tábuas, se tornam perpetuas para o homem, e devem ser utilizadas pelos crentes de maneira superior [5] para o viver santo. Os crentes são salvos por Deus através de sua graça. E por este motivo podem viver uma vida santa. Assim a afirmação feita por Johannes Geerhardus Vos é pontual: “Não somos salvos por causa da obediência, somos salvos para a obediência.” [6]. Através da obediência em amor à vontade de Deus, somos levados a cumprir a Lei e desfrutá-la. Portanto uma compreensão adequada a Lei de Deus nos ajudará a viver mais adequadamente a vontade de Deus e ter uma intimidade profunda com Ele.

A Lei Perfeita

A Lei de Deus é útil para vida do crente, sendo assim, é necessário nos aprofundarmos em seu entendimento para que possamos comprende-la de maneira mais adequada, e aprender com seu princípios e buscarmos uma exposição sobre sua doutrina e princípios basicos.

Embora as Escrituras se utilizem de diversas formas para se referir a palavra Lei, o uso especial da qual nos remetemos aqui é aquele encontrado no Antigo Testamento na palavra hebraica תּוֹרָה[7] (torah), que carrega o seguinte siginificado:  direção e instrução[8]. Ela nos orienta a respeito daquilo que deve ser feito e sobre o que devemos conhecer. Assim quando penssamos na Lei de Deus, ela passa a ser a instrução do proceder do homem aqui na terra. A lei passa a espressar a perfeição de quem a fez, o Senhor a registrou em duas tabuas, para que seu povo pudesse viver em sua vontade. A perfeição da Lei é evidenciada de diversas formas em todas as Escrituras. O salmista por exemplo diz “quanto amo a tua lei!” (Sl.119.97). Demostrando o prazer que ele sente na Lei, assim também o apostolo Paulo escrevendo ao jovem Timoteo diz “Sabemos, porém, que a Lei é boa, se alguém dela se utiliza de modo legítimo” (1Tm.1.8).

Na lei encontramos o padrão absoluta para vida do homem, uma lei que expressa a vontade de Deus. “A lei é perfeita” (Sl. 19.7), portanto ela só pode ser boa e agradavel ao homem. Em sua natureza a lei é perfeita, tão perfeita que ela não só contém tudo que devemos fazer, mas nestes deveres não há erros[9]. Nesta lei encontramos o padrão do amor de Deus, e vemos a sua perfeição uma vez que a lei nos ajuda amar a Deus e a viver este amor, e assim também com relação ao proximo, assim tudo que concebemos a partir da lei é bom, portanto perfeito.

A lei expressa a Justiça de Deus, é através dela que Deus julga o mundo, ela se torna a vara de medida da verdade. A lei tem a autoridade nela mesma, não precisa ser remodelada, muito menos modificada, ela expressa aquilo que é justo. A lei é autoritativa, sendo Deus há base para sua autoridade que agora pode ser vista na maneira pela qual o homem se relaciona com a Lei, observando ela obedientemente, assim como alguém obedece as autoridades. A obediencia é uma parte da nossa honra a Deus[10]. Assim é pela autoridade da lei que Deus ensina os cristãos a viverem, como Samuel Bolton diz “os apostolos usam a autoridade da lei para provocar os cristãos aos seus deveres”[11].

O espiríto opera por meio da Lei, trazendo pecadores ao arrependimento, moldando seus corações a vontade de Deus, nisto consiste sua perfeição, pois é através dela que somos convencidos de nosso pecados, que apreendemos a não pecar, e agora regenerados pelo Espírito a viver a vontade de Deus em obediência a Lei.

A Lei é perfeita porque nos leva a Cristo. O próprio Jesus afirmou categoricamente: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra.” (Mt.5.17-18). Jesus sabia que o cumprimento da Lei seria a maneira correta de agradar a Deus. Vemos claramente que sua explicação da Lei, é uma aplicação direta a aquilo que ele havia dito antes. A maneira de os Cristãos serem “sal na terra” (Mt.5.13) e “luz no mundo” (Mt.5.14) seria eles cumprindo adequadamente a Lei de Deus. Assim, em sua exposição da Lei, Jesus não trouxe um sentido diferente a lei, nem mesmo corrigiu algo que estivesse errada nela [12]. Mas, o que ele fez foi trazer luz, foi nos dar uma interpretação verdadeira. Jesus não introduziu novos preceitos a lei, mas ratificou cada parte dela, dando a ela uma posição elevada, demostrando o erro na interpretação dos escribas e fariseus. A lei nos ajuda a nos parecemos com Cristo, a buscarmos a nos conformarmos com a sua imagem, ela “restaura a alma” (Sl.19.7) nos aperfeiçoando a imagem do nosso Senhor.

A Lei como expressão do caráter de Deus

A lei é a expressão do carater de Deus, ela revela quem estabeleceu as leis para todo o universo. Como Archibald A. Hodge declara:

Que Deus, como o supremo governador moral do universo, introduziu a raça humana na existencia como uma ordem de criaturas morais, debaixo de uma inalianável e perpetua sujeição a toda uma perfeita lei moral, que em todos os elementos vincula a consciência do homem e requer perfeita obediencia.[13]

A Lei expressa quem a criou. Sendo Deus infinito em seu ser, a lei é portanto perpetua, sendo ele amor, a lei é amor, e assim por diante. Quando olhamos para a lei somos confrontados com a pessoa de Deus em todo o nosso ser. Deus é evidenciado em sua Lei, ele é quem há estabeleceu de eternidade a eternidade. A Lei manifesta a majestade de Deus, especialmente quando ela evidência a relação do criador com suas criaturas através da Lei,  seu caráter pessoal é inseparável de sua Lei expressando sua glória e soberania nela.[14]

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Na Lei aprendemos a nos relacionar com o criador e suas criaturas, esse aspecto pessoal e relacional da Lei, demonstra que ela foi feita por Deus. Portanto, quando olhamos para as duas tabuas da Lei observamos isto claramente. Elas nos ajudam em obediência reconhecer quem Deus é. Devemos nos lembrar que não há principio, nem lei acima de Deus. Sua Natureza[15] como afirma Vos é sua única lei. Deus nos ajuda a entender que não cumprimos a lei apenas como regras morais para nossa vida, mas a cumprimos por ser ela a expressão da prórpia natureza divina.


[1] Cf. Assembleia de Westminster. O Catecismo Maior. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2008, p.107

[2] Cf. KEVAN, Ernest. A Lei Moral. Trad.: Denise Pereira Meister. São Paulo: Os Puritanos, 2000, p.7

[3] Cf. KEVAN, Ernest F. The grace of law: a study in puritan theology. Grand Rapids: Baker Book House, 1976, p.21.

[4] AMES, William. The marrow of theology. Boston: The Pilgrim Press, 1968, p.169.

[5] Cf. CALVINO, João. As Institutas. Trad.: Waldir Carvalho Luz. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p.124.

[6] VOS, Johannes G. Catecismo Maior de Westminster comentado. Trad.: Marcos Vasconcelos. São Paulo: Os Puritanos, 2007, p.308.

[7]The Holy Bible: King James Version. (2009). (Electronic Edition of the 1900 Authorized Version., Sl 19.7). Bellingham, WA: Logos Research Systems, Inc.

[8] HOLLADAY, William L. A concise Hebrew and Aramaic Lexicon of the old Testament. Grand Rapids: Printed in the United States of Amarica, 1978, p.388

[9] TURRETINI, François. Compêndio de teologia apologética; Vol.II. São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p.39.

[10] Cf. WATSON, Thomas. (2019-10-29 T06:00:00). The Ten Commandments. Edição do Kindle, p.1.

[11] BOLTON, Samuel. The true bounds of christian freedom. Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1964, p.65.

[12] Cf. TURRETINI, François. Compêndio de teologia apologética; Vol.II. São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p.41.

[13] HODGE, A. A. The Confession of Faith. Edinburgh: The Banner of truth trust. 1992, p.248

[14] Cf. KEVAN, Ernest F. The grace of law: a study in puritan theology. Grand Rapids: Baker Book House, 1976, p.47.

[15] Cf. VOS, Johannes G. Catecismo Maior de Westminster comentado. Trad.: Marcos Vasconcelos. São Paulo: Os Puritanos, 2007, p.307.

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Eduardo Amaral
Eduardo Amaral

Casado com Ana Helena e pai de duas meninas Ester e Alice. Está cursando Teologia no Seminário presbiteriano José Manuel da Conceição. Louvo a Deus e dou toda Glória a Ele, por ter me concedido a alegria de servi-lo e de poder pastorear a suas ovelhas.

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