Se bem me recordo, o ditado popular diz que “promessa é dívida”. Pois bem, este artigo é o cumprimento de uma promessa feita há algumas semanas atrás em um outro artigo, Educação Clássica Cristã e o Mito da Bolha, onde indico a necessidade de explorarmos o ressurgimento da educação clássica em nossos dias, o que se apresenta como o propósito deste texto. 

Lembrando que não procuro abordar todas as vertentes e pontos históricos que nos levaram a chegar no modelo clássico que temos atualmente, o texto visa dar uma panorama geral, breve e conciso do ressurgimento do modelo de ensino clássico nos últimos anos. 

Dorothy Sayers e a Educação Clássica

Filha do reverendo Henry Sayers, Dorothy Leight Sayers nasceu no dia 13 de junho de 1893, em Oxford. Desde cedo distinta em suas capacidades intelectuais, Sayers se destacava nos estudos, recebendo então uma bolsa para estudar na Sommerville College, graduando-se com honras em 1915.

Sua carreira como escritora teve início em 1923 com a publicação de Whose Body, e durou até sua morte em 1957 como um dos grandes nomes de romances policiais. Podemos resumir sua história como a de alguém bem-sucedido tanto no aspecto intelectual e espiritual (era anglicana em sua teologia) quanto nos aspectos profissionais e sociais, dado o impressionante ciclo de amizades que tinha; vale destacar alguns de seus amigos, como T. S. Eliot, Charles Williams e C. S. Lewis.

Dentre as várias obras publicadas por Sayers encontra-se sua colaboração na tradução das obras de Dante para o inglês. Vale também lembrar que sua altíssima capacidade e “sua presença formidável, cérebro magnífico e apresentação lógica a colocaram em grande demanda como palestrante. Em 1947, numa palestra sobre educação ministrada em Oxford, Sayers fez a leitura de seu artigo As Ferramentas Perdidas da Educação, publicado primeiramente no Hibbert Journal: A Quarterly Review of Religion, Theology, and Philosophy. E é então que encontramos a importância de Sayers para o ressurgimento da educação clássica nos nossos dias. 

Sua palestra e artigo parecem não ter surtido muito efeito naquela época, mas veio a tornar-se ponto importante no resgate do que conhecemos como a educação clássica cristã por meio da preciosa providência de Deus. 

Douglas Wilson e a Educação Clássica

Nosso foco volta-se agora para a pequena cidade de Moscow, em Idaho, Estados Unidos. Anos depois de ter servido na Marinha americana, o então reverendo Douglas Wilson se depara com um dilema: como educar seus filhos. Segundo ele mesmo, seu envolvimento com a educação se deu por ser um pai “preocupado — tínhamos três filhos que precisavam de educação, e Nancy [esposa de Wilson] e eu não queríamos que eles passassem pelo tipo de educação que recebemos”.

Em seu livro “The Case for Classical Christian Education”, Wilson relata um pouco mais como isso aconteceu. Ele se recorda de ter tido o primeiro contato com o artigo de Sayers quando ainda estava prestando serviço militar; cerca de vinte anos depois, como pai prestes a entregar sua filha à educação até então disponível, Douglas revisitou o artigo e, tendo lido, nas linhas desafiadoras e na observação da própria autora, cuja mente “não cria haver alguém suficientemente louco para tentar aplicar o que ela estava propondo”, aceitou o desafio. Segundo Wilson, isso foi o suficiente para dar início ao que agora chamamos de educação cristã clássica. 

As Ferramentas Perdidas da Educação 

Mas, afinal de contas, do que esse tal artigo trata? O que foi tão desafiador e diferente que Dorothy Sayers propôs em seu artigo As Ferramentas Perdidas da Educação? Aparentemente nada havia de tão extraordinário no artigo, pois o mesmo não causou tanto impacto na época de sua publicação. Porém Deus tem suas formas e maneiras de agir, e certamente havia guardado algo interessante para a nossa época. 

De forma resumida, Sayers teve ao menos duas contribuições muito importantes. A primeira delas se dá na observação feita de que o Trivium, as três primeiras das sete Artes Liberais, além de matérias em si, poderia e deveria ser aplicado como metodologia de ensino. Logo, a Gramática, primeira das sete, não seria apenas uma matéria que viria a lidar com a gramática per se de uma língua, mas sim um método de ensino que enfatizaria a memorização como parte necessária para aquisição dos elementos básicos de todas as matérias e não apenas de um idioma. Da mesma forma a Lógica, esta serviria como meio de ensinar como cada matéria funciona, e por fim a Retórica, que trata de ensinar como apresentar o conteúdo adquirido e compreendido da melhor forma.

Em segundo lugar, Sayers observou que toda criança possui, como fruto da obra do Criador em cada uma delas, características semelhantes de desenvolvimento. O que isso quer dizer é que uma criança no Ensino Fundamental I tem por natureza uma facilidade e propensão à memorização. Já uma criança que se encontra no período do Ensino Fundamental II tem como norma questionar tudo, enquanto no Ensino Médio ela se encontra num momento de querer mostrar ao mundo suas qualidades e habilidades. 

Assim, o primeiro estágio, o da Gramática, teria seu início nos anos iniciais do estudo formal da criança, o que corresponde ao nosso Ensino Fundamental I, que seria substituído pelo segundo estágio de desenvolvimento, o da Lógica, que corresponde ao nosso Ensino Fundamental II, terminando com o estágio da Retórica no período que chamamos de Ensino Médio.

Sayers nomeou cada um desses estágios, dessas fases: da Gramática como Papagaio (Poll-Parrot Stage), da Lógica como Atrevido (Pert Stage) e da Retórica como Poético (Poetic Stage). O que há de inovador nisso é o fato de que tais estágios somados as matérias do Trivium, por vez utilizadas como metodologias de ensino e não apenas matérias específicas, trariam luz à Educação Clássica e viriam a se tornar uma nova maneira de enxergar como tal poderia ser aplicada de forma prática em nossos dias.

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As Mudanças Educacionais até Sayers

A América Colonial ia de vento em pompa no que diz respeito ao desenvolvimento educacional de seus cidadãos. Segundo Neil Postman em sua obra Amusing Ourselves to Death, “há evidência suficiente de que, entre 1649 e 1700, a taxa de alfabetização para homens em Massachusetts e Connecticut estavam entre 89% e 95%, muito provavelmente a maior concentração de homens alfabetizados a ser encontrada em qualquer lugar do mundo naquela época”. Postman acrescenta que a taxa para mulheres era igualmente alta, em torno de 62% em 1691-1697.

Além da ênfase na leitura, esses novos imigrantes tinham como parte principal da literatura a Bíblia. Postman também salienta que “a partir de 1650, quase todas as cidades da Nova Inglaterra criaram leis que obrigavam a manutenção de escolas de “leitura e escrita”, sendo as comunidades maiores obrigadas a manterem escolas de Gramática”.

Richard Hofstader nos lembra de que “a América foi fundada por intelectuais […] ‘Os pais fundadores’, ele escreve, ‘eram sábios, cientistas, homens de amplo cultivo, muitos deles aptos no ensino clássico, que utilizaram sua ampla leitura sobre a História, política e direito para sanar os exigentes problemas do seu tempo”.

Não menciono esses por outra razão senão para demonstrar que a educação resultante do ensino clássico, norma na Europa durante o período pré-colonização americana, era um modelo que funcionava muito bem. Mas esses números não permaneceriam os mesmos ao longo dos tempos. No final do século XIX, a América de então já estava muito diferente. Novas descobertas científicas, a Revolução Industrial, a imigração e vários outros fatores começaram a modificar drasticamente o cenário norte-americano e consequentemente seu cenário educacional. 

Dentre os mais influentes educadores desta época encontra-se John Dewey. Dewey, bem como outros de sua época, pode ser classificado com um dos líderes do progressivismo educacional. A educação passaria então a servir os propósitos nacionalistas de forma mais pragmática e deixaria de servir propósitos cristãos e do bem coletivo.

Como vimos, Dorothy Sayers entra em cena em 1947, período em que o sistema educacional já havia sido modificado e a ênfase não mais se encontrava na leitura e escrita, mas sim nos números e na ciência, com seus pressupostos progressistas e anticristãos.

De 1947 até 1991

Da época da palestra de Sayers em 1947 até 1991 com o lançamento de Recovering the Lost Tools of Learning escrito pelo reverendo Douglas Wilson surgiram alguns movimentos clássicos. Em 1981, David Hicks escreve Norms and Nobility. Nesta obra Hicks associa a educação moral à educação clássica, sugerindo assim um novo modelo educacional clássico. Neste mesmo ano, sob a tutela do reverendo Douglas Wilson, é lançada a escola cristã clássica Logos School, em Moscow, Idaho. 

No ano seguinte, em 1982, outro grande nome surge como o promotor da educação clássica, este, Mortimer Adler, ganha destaque até mesmo da mídia tanto por sua presença e conhecimento inigualáveis quanto por suas obras; dentre elas a edição de The Great Books of the Western World, da Enciclopédia Britânica, e do best-seller Como Ler Livros.

Já em 1991, o reverendo Douglas Wilson reconta o artigo de Sayers em sua obra Lost Tools of Learning, e nela faz uma defesa do modelo clássico, advogando sua aplicação como o melhor modelo educacional vigente. Três anos mais tarde, em 1994, é fundada a Associação Clássica de Escolas Cristãs (ACEC), bem como a New Saint Andrews College, universidade cristã clássica. 

A Educação Clássica Cristã nos Dias de Hoje

Apenas uma geração após a abertura da Associação Clássica de Escolas Cristãs, Deus já tem nos abençoado. Milhares de educadores participam de conferências anuais não só da ACEC, mas também na de outras associações. 

O número de escolas associadas à ACEC já passa de 300, com mais de 50 000 alunos norte-americanos sendo instruídos pelo modelo clássico, isso sem contar as escolas católicas e de outras associações. Os números de instituições de ensino e o ressurgimento do movimento também tem chegado em outras nações e contamos com as mais variadas formas de aplicação do modelo clássico em todo o mundo por meio de modelos diferenciados como: Charlotte Mason, Classical Conversations, Coops independentes, grupos Scholé, grupos católicos, Cottage Schools, Escolas Clássicas Públicas, etc.

Que Deus nos ajude a crescer ainda mais e a proporcionar aos nossos filhos e às próximas gerações aquilo que não tivemos o privilégio de ter, para o desenvolvimento humano com vistas ao aperfeiçoamento de cada indivíduo à semelhança de Cristo, visando e objetivando a honra e glória de Deus.


Elmer Pires
Elmer Pires

Elmer G. Pires é Brasileiro, casado, formado em Teologia com ênfase em Grego Koine e Mestrado em Educação pela Universidade Bob Jones, em Greenville na Carolina do Sul, Estados Unidos. Possui também um bacharel em Teologia pela Faculdade Dehoniana e está terminando o bacharel de Pedagogia e um bacharel em Letras. Também é sócio fundador da editora Trinitas e da Escola Cristã Clássica Trinitas e está à frente da da igreja Batista Reformada de São Bernardo do Campo.

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