A fé reformada tem uma série de características e ênfases que conferem aos presbiterianos uma identidade bem definida. Cinco áreas são especialmente importantes:
Doutrina: os presbiterianos crêem que uma teologia correta, equilibrada e bíblica é essencial para a vida do cristão. Todo crente, mesmo sem o saber, tem concepções teológicas e essas concepções irão influenciar todos os aspectos da sua vida cristã. Os reformados não valorizam a teologia pela teologia, mas como um instrumento para nos proporcionar um melhor conhecimento de Deus e do nosso relacionamento com ele.
• O fundamento maior da fé reformada são as Escrituras do Antigo e do Novo Testamento, nossa única regra de fé e prática. Os documentos de Westminster (Confissão de Fé e Catecismos) não tem a mesma autoridade que a Bíblia. Eles são aceitos pelos presbiterianos como expressão histórica do seu entendimento da fé cristã e como um roteiro ou auxílio para o estudo das Escrituras.
• A fé reformada abraça três categorias de doutrinas: (a) algumas delas são aceitas por todos os cristãos, como a trindade, o caráter divino-humano de Jesus Cristo, a sua ressurreição, sua morte expiatória, a segunda vinda, etc. - essencialmente, as verdades afirmadas pelos grandes concílios da igreja antiga, nos séculos IV e V; (b) outras doutrinas são as que temos em comum com as demais igrejas protestantes ou evangélicas: as Escrituras como única regra de fé e prática, a suficiência da obra redentora de Cristo, a salvação exclusivamente pela graça mediante a fé, o sacerdócio universal dos crentes, os sacramentos do batismo e da santa ceia, etc.; (c) finalmente, existem aquelas doutrinas e práticas mais específicas dos presbiterianos, como a ênfase na absoluta soberania de Deus, a conseqüente crença na eleição ou predestinação, o batismo por "aspersão" e o batismo infantil, e a forma de governo presbiterial.
• Por causa da sua ênfase nas Escrituras e na boa teologia, os reformados tem dado grande valor à educação, tanto para as pessoas em geral, quanto para os seus pastores - os ministros da Palavra. Essa preocupação intelectual nunca deve ocorrer às expensas da vida espiritual (estudo + devoção).
Culto: o reconhecimento da soberania do Senhor e a preocupação com a sua glória devem ter reflexos sobre o culto, a expressão mais visível e central da vida coletiva da igreja. Calvino acentuou os seguintes princípios para o culto: integridade bíblica e teológica (lex orandi, lex credendi), equilíbrio entre estrutura/forma e essência, inteligibilidade, edificação, simplicidade (sem pompa, teatralismo), flexibilidade (p.e., freqüência da Ceia do Senhor), participação congregacional (cânticos, salmos metrificados).
• O objetivo principal do culto é exaltar e glorificar a Deus, e não agradar os participantes. Daí a necessidade de reverência. O culto também visa suprir necessidades legítimas da congregação. Disso decorre a importância da pregação no culto reformado. A pregação autêntica deve ser bíblica, doutrinária e prática, isto é, relacionada com a vida. O culto deve refletir um saudável equilíbrio entre intelecto e sentimento, mente e coração. Um belo exemplo desse equilíbrio foi a vida do pastor e teólogo reformado Jonathan Edwards (1703-1758).
Vida Comunitária: a identidade presbiteriana também deve manifestar-se na maneira como os irmãos vivem e se relacionam na comunidade da fé. Os reformados crêem firmemente no sacerdócio de todos os fiéis, ou seja, todos os crentes são iguais em sua dignidade e direitos. Não existe distinção entre clero e leigos: todo crente é um ministro de Deus. Os ofícios instituídos na igreja (pastor, presbítero, diácono) visam apenas dar maior ordem e estabilidade ao trabalho e suprir necessidades nas áreas de liderança, assistência espiritual e beneficência.
• O sistema presbiteriano é democrático e representativo. Todos os membros comungantes da igreja tem o direito e o dever de envolver-se nas atividades e decisões da comunidade, participando das assembléias, elegendo oficiais, contribuindo para o sustento da igreja e seus programas, servindo em diferentes áreas conforme os dons e capacidades de cada um. O conceito do pacto tem muitas implicações para a vida familiar e eclesial.
• A tradição reformada também dá grande valor à participação do crente na comunidade mais ampla, a sociedade. Calvino, a partir das suas convicções teológicas e da sua experiência em Genebra, insistiu que o cristão deve viver responsavelmente no mundo, como cidadão, como profissional e em outras capacidades. Deus é o senhor de todas as coisas; portanto, todas as esferas da vida devem refletir os valores do seu reino.
Missão: os presbiterianos reconhecem que Deus chama os seus filhos e filhas para uma missão junto à sociedade e ao mundo. Essas missão tem duas dimensões primordiais:
• Evangelização: desde o princípio, os calvinistas tiveram uma forte preocupação missionária, primeiramente na Europa e mais tarde em outras partes do mundo. Foi graças a essa preocupação que nasceu a Igreja Presbiteriana do Brasil. No que diz respeito ao mundo, a missão maior da igreja é compartilhar o evangelho da graça e da glória de Deus com aqueles carentes de reconciliação, perdão e vida eterna. A crença na eleição não é um empecilho, mas um incentivo para a evangelização. Alguns dos maiores evangelistas e missionários do mundo foram calvinistas, como os pregadores ingleses George Whitefield (1714-1770) e Charles H. Spurgeon (1834-1892), o pioneiro das Novas Hébridas John Paton (1824-1907), a missionária em Calabar, África Ocidental, Mary Slessor (1848-1915) e o missionário aos muçulmanos Samuel M. Zwemer (1867-1952).
• Serviço: Calvino e seus herdeiros sempre deram muita importância ao serviço cristão ou diaconia. Seguindo o exemplo de Cristo, o crente deve ser instrumento de Deus para ministrar a todos os tipos de necessidades humanas, ao ser humano integral: corpo, mente e espírito. Isso é tão importante que as igrejas reformadas têm uma classe de oficiais dedicados especificamente às atividades beneficentes: os diáconos. Todavia, o serviço cristão é dever de todo crente. Historicamente, os reformados têm se envolvido em muitas iniciativas de socorro aos sofredores e carentes, e têm se mobilizado para transformar situações de injustiça e opressão.
Ética: uma outra área importante para a vida reformada diz respeito aos valores. O cristão é chamado para uma vida de santidade e integridade na sua relação com Deus, com a igreja e com a sociedade, naquilo que ele é e faz. Não se pode dissociar a ética pessoal da ética social. Se um crente não é íntegro individualmente, dificilmente poderá lutar pela justiça, honestidade e transparência na vida política, econômica e social do país. Esse é outro elemento importante para a identidade presbiteriana, em um mundo cada vez mais carente de padrões firmes e seguros. Mais uma vez, o fundamento de tudo está na soberania e na graça de Deus.
» Leituras Recomendadas:
Biéler, André, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, trad. Waldyr C. Luz (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990).
Biéler, André, El Humanismo Social de Calvino (Buenos Aires: Editorial Escaton, 1973).
Calvino, João, As Institutas ou Tratado da Religião Cristã, 4 vols., trad. Waldyr Carvalho Luz (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1985-1989).
Carlson, Paul, Our Presbyterian Heritage (Elgin, Illinois: David C. Cook, 1973).
Ferreira, Wilson Castro, Calvino: Vida, Influência e Teologia (Campinas: Luz Para o Caminho, 1985).
George, Timothy, A Teologia dos Reformadores (São Paulo: Vida Nova).
Lingle, Walter L., Presbyterians: Their History and Beliefs (Richmond: John Knox, 1960).
Lopes, Augustus Nicodemus, Calvino e a Responsabilidade Social da Igreja (São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas).
Matos, Alderi S., "Amando a Deus e ao Próximo: João Calvino e o Diaconato em Genebra," Fides Reformata II/2 (Julho-Dezembro 1997), 69-88.
Parker, T.H.L., Calvin: An Introduction to his Thought (Louisville: Westminster/John Knox, 1995).
Souza, Manoel B. de, Porque Somos Presbiterianos, 2ª ed. (Rio de Janeiro: Edições Princeps, 1963).
Reid, W. Stanford, Calvino e Sua Influência no Mundo Ocidental (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990).
Van Halsema, Thea B., João Calvino Era Assim (São Paulo: Editora Vida Evangélica, 1968).
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